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VÔO LIVRE >> Cristiana Moura


Liberdade, num olhar sartreano, é condição. Somos livres. Escolhemos e somos responsáveis por estas escolhas. Liberdade é uma dádiva e uma condenação. Há de ser livre toda a pessoa. Nesta manhã experimentei uma tal liberdade no corpo cujas palavras de dizê-la me escapolem com a brisa. Fora liberdade tátil, cinestésica, de um lugar corpo-a-dentro, lugar corpo-a-fora. Coisa de ser mundo que voa e sobrevoa o mundo que é.

Já experimentaram não ter os pés no chão? Pois é diferente. É a sensorialidade de parte alguma do corpo tocando o chão. Disseram-me: — Você foi livre como um pássaro! Talvez. É que o pássaro, coitado, ele tem que voar. Eu não. Poderia ter ido à praia, lido um livro, ficado no hotel, visitado um museu. Mas eu escolhi saltar da Pedra da Gávea de asa delta. Fui eu e o mundo planando sobre a vida vivida. É como se todos meus póros tivessem se dilatado e o mundo me invadisse de tal forma que o tempo parasse.

Sim, houve sim um frio na barriga. Durou dois segundos apenas. Deve ser por isso que chamamos vôo livre: porque a pele ganha uma temporalidade única de um voar — um parar do tempo em uma pele-corpo-só. Ah, e a beleza vista lá de cima... Foi como se eu virasse toda aquela beleza — é muito mais que contemplar — é ser.

São tantas as aventuras cotidianas: passear com os amigos, apresentar trabalho em congresso, perder-me na urbanidade entre carne e pedra das grandes cidades, encontrar-me num sorriso que me mira, dançar o samba a dois entre passos íntimos e outros desconhecidos em pernas que se misturam, ser avó o mês que vem quando Miguel chegar.

Habita-me uma gratidão leve por ter voado livremente. Uma gratidão por, em todos os outros dias, apenas andar. Para que eu possa, assim, reconhecer a diferença e caminhar... E voar...

Comentários

sergio geia disse…
Bacana, Cris! Parabéns pela viagem, pelas experiências, e pela coragem, hein? Bjs

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