quarta-feira, 12 de abril de 2017

CUIDADO COM O OLHAR DAQUELA AO LUAR
>> Carla Dias >>

 
O talento nasceu com ela. A irmã mais velha, que a criou desde pequena, teve de aprender a lidar com a habilidade da irmã-filha de maneira imposta. Queria não... Rezou muito, apegou-se a umas novenas, bateu tambor, compartilhou corrente, leu livros proibidos, despachou à beça, fez oferenda e nada. A menina continuava a aprontar suas maluquices.

Durante muito tempo, a irmã-mãe acreditou que a irmã-filha tivesse com a cachola avariada. Preocupou-se sobre o que faria se a maluquice da menina tomasse conta dela, de um jeito que seria necessário viabilizar companhia 24 horas para evitar coisa pior.

Pior do que o quê?

Do que a reclamação constante dos vizinhos, que corriam da menina ao vê-la na rua, como o diabo corre da cruz. E o padre da paróquia do bairro, que decidiu brincar de exorcista e jogava água benta nela, toda vez que ela caminhava rumo à escola.

Teve um dia em que uns políticos, temerosos do que ela poderia revelar sobre eles, sequestram-na do jardim, enquanto ela brincava de amarelinha, sozinha, e a levaram até o cemitério. Apontaram uma cova vazia e disseram, usando vozes guturais e meias-finas na cabeça, que se ela continuasse a fazer o que andava fazendo, acabaria ali, debaixo de sete palmos de terra. A menina, mais curiosa do que atemorizada, entrou na cova, deitou-se lá e ficou olhando para os marmanjos a sua volta. Mas foi ao olhar para o céu, aquelas estrelas todas, que ela se distraiu de um jeito, que eles pensaram que a menina estava possuída por algum espírito maligno que rondava o lugar. Saíram correndo e a deixaram lá... A observar estrelas e se apaixonar por lua cheia.

Voltou para casa sozinha, de madrugada. Quando chegou lá, a irmã-mãe, que já estava desesperada com o sumiço da irmã-filha, berrando sua aflição aos policiais aliviados de não encontrar a menina, pegou-a no colo e chorou, durante muito tempo. Desde então, a irmã-mãe não sente agonia com o talento da menina. Aceitou o tal assim, encarando o fato de que se livraria dele somente se sua irmã-filha deixasse de existir, o que ela nunca desejou.

A paixão da menina pela lua cheia, que ela expressava sem pudores, inquietou os moradores do bairro. Essa coisa “bruxesca”, inclinada aos desmandos do capeta, que deixava tudo mais misterioso, fez com que as pessoas a temessem tanto que decidiram se comportar melhor. Assim, ao encontrá-la na rua, sorriem para ela e seguem seu rumo, bem rápido.

Duro mesmo foi quando a menina se tornou mulher, e das que não têm medo de lidar com situações escabrosas. Os políticos que a levaram ao cemitério quando criança, fundaram uma sociedade secreta, só para discutirem formas de se protegerem. Por ali passou de tudo: capangas disponíveis para, a qualquer hora, darem cabo dela. Não deu muito certo, pois quando sabiam de quem se tratava, davam no pé. Temiam que, ao executarem o serviço, o diabo em pessoa - e maledicência - colheria suas almas. Benzedeiras, mães de santo, líderes de outras sociedades secretas, e por aí vai. Se houvesse uma chance de derrubá-la, os tais tentavam.

A irmã-mãe se apaixonou e mudou não só de cidade, mas de país. Aquele estrangeiro que bandeou lá pela sua terra a fez sentir amor tão poderoso, que ela, apesar de sofrer com o feito, não teve dúvidas de que seu destino era partir com ele. Chorou demoradamente em um abraço com a irmã-filha, que a entendia e queria mais é que a irmã-mãe fosse feliz.

E lá se foi a irmã-mãe ser feliz no estrangeiro.

Viu-se sozinha pela primeira vez, mas não desalentada. Tocou a vida com a certeza de que a irmã merecia felicidade, depois de tantas tristezas inspiradas pela sua existência.

Transformou o quarto da irmã em ateliê. Colocou uma foto delas na parede, garantindo que ali elas sempre estariam. É muito boa na sua função, e mesmo que as pessoas a temam, desde sempre, acabam por procura-la, quando precisavam de uma roupa nova. É a única costureira da cidade e das talentosas. Em nome de uma boa veste, engole-se o medo. Exceto os políticos. Esses mandam dublês de corpo para experimentarem os panos.

Algumas pessoas não falavam com ela, depois de expressarem seus desejos sobre a roupa. Outras, bem, elas conseguiam ficar somente alguns minutos, depois saiam, dizendo que o mal morava naquela casa. Ela entendia o medo das pessoas, mas não elas pensarem no mal vivendo em uma casa que sempre foi repleta de amor, habitada pelo respeito.

E havia as outras pessoas...

As que contratavam seus serviços, apenas para estarem no mesmo cômodo que ela, e a observarem de perto. Teve quem concluísse, entre um corte e uma pence, que ela não parecia tão diabólica quanto diziam. E quem oferecesse muitos dinheiros para dormir com a meretriz do Belzebu. O padre a contratou para remendar uma de suas batinas, só para dar continuidade a sua necessidade de jogar água benta nela. Ela remendou, serviu um café a não cobrou pelo serviço. Ele disse que a água benta estava funcionando.

Deitada no jardim de sua casa, vendo lua cheia ser de lindeza brutal. Dizem que ela faz isso para se energizar e dar continuidade ao seu plano de levar a cidade ao fim. Teve escritor que a observou pelo muro e escreveu um romance sobre a mulher que falava com a lua.

O que as pessoas negam é a importância dela nesse lugar. Seja a temendo ou a odiando profundamente, elas sempre batem à sua porta. O serviço que ela oferece é escasso, nem bem-visto o tal é, mas é dos essenciais. Ela acha um tanto irônico que, sendo capaz de descobrir os segredos das pessoas, apenas de olhar para elas, não importa quão bem elas os escondam, inclusive de si mesmas, ninguém seja capaz de olhar para ela e enxergá-la na crueza de quem é.

Para facilitar a aproximação dos temerosos, e ajudá-los com suas encruzilhadas, aceita a definição que eles adotam para recorrer aos serviços dela, que não o de costureira. Assim, dizem que ela lê cartas, borra de café, nuvens. Desvenda os mistérios dos sonhos, da intuição, do próprio medo que conduz a tantos de forma nebulosa no trato com a verdade.

Ninguém aprecia quem pode ler verdades apenas ao olhar para alguém. Imagine se essa pessoa decide contar a todos o que nem o próprio quem reconhecer. Ela nasceu com essa facilidade. Quando menina, não entendia a necessidade de respeitar o medo do outro e era língua solta, saindo por aí a dizer verdades. Mas aquele dia no cemitério mudou isso.

Para descansar seu olhar, proteger o próprio espírito, encanta-se com a lua cheia, enquanto sonha com o dia em que a verdade será nítida a quem quiser enxergá-la.

Imagem: Sunrise Water Nymphs © Arthur Prince Spear 

carladias.com



Partilhar

2 comentários:

albir silva disse...

Seus personagens têm uma humanidade difícil de atingir em personagens. Dá vontade conhecê-los.

Carla Dias disse...

Obrigada, Albir. :)
Acho que conheço alguns deles. Beijo.