quarta-feira, 26 de abril de 2017

LINDA, MAIS QUE DEMAIS >> Carla Dias >>


Sua lindeza é curvilínea e habita as esquinas e os becos e os prédios – abarcados ou não pela felicidade – e os erros e a pessimamente urbanizada natureza humana. Evita-se observar algumas de suas zonas – e a elas dirigir um tanto de respeito que seja –, que nem todas excitam o olhar, apenas incitam a reflexão sobre a indelicadeza com a qual se negam a dedicar tempo para temperar de cuidados as suas ruas.

Cuidar de quê?

Para quem?

Para todos, um filantropo responderia, devidamente endossado por líderes religiosos voluntários, empregados – do turno da noite – de lojas de conveniências, avós especializadas em educar netos, catadores de latas, elas que já foram o prazer de um desconhecido que decidiu esvaziá-las. Palhaços bradariam: para todos!, com a alegria corrompendo o cansaço de quem gargalhou o dia inteiro, sem que lhe fosse oferecida uma única inspiração que confortasse seu espírito. Porque a alegria - como vieram a descobrir os experientes na arte da sobrevivência – é uma manifestação de resistência.

Resistem, então. Gargalham suas dores e dominam seus demônios.

Mas não sem colecionarem desapontamentos e se refestelarem em rótulos ao posarem de indivíduos críveis. E se desapontarem durante conversas nas quais nunca são sujeitos, apenas objetos, trampolins para estatísticas. Porque existem, apesar do cansaço do olhar daqueles que insistem em não os reconhecer pessoas e a lhes negar direitos. Eles que estão ali, nas esquinas, nas entranhas dela, no estranhamento, nas milongas e nos devaneios, no samba de roda, nas estações de trem, na calçada tomada pelos ambulantes, nas zonas evitadas pelos guias turísticos.

Vê que linda? Não dessa beleza de capa de revista, que cabe em design de mercado financeiro ou se destaca em trend topics ao se tornar tema de projeto limitado. Quem enxerga essa lindeza, prefere se sentar e apreciá-la, em vez de se dedicar a moldá-la, até que ela caiba em resumo.

Não se resume a lindeza, meus caros. Para desfrutar dela: aceitá-la. Resolver seus problemas com sobriedade e desvelo.

Ao diminuir a velocidade, quem sabe, será possível perceber suas nuances e evitar alguns acidentes. A pressa reverbera o descuido e o descaso. Veja bem essa lindeza na qual cabe também as imperfeições, as suas questões, a sua inegável necessidade de reparo, até o rio fétido que a corta faz parte de sua lindeza, simplesmente porque nela cabe, dela vem, por ela retomará sua fluidez e salubridade.

Seus contrastes, suas auguras, suas batalhas.

Não se esqueça daqueles que moram à deriva da geografia defendida pelos comerciais de televisão. Nem tudo cabe em tela. Sua lindeza é divergente e imprudente, está nas fronteiras, nas mudanças de cenário, nas peles coloridas, na misturada, nas estações de metrô, nos ônibus lotados, na pluralidade daqueles que a acarinham com os pés, durante caminhadas, até o trabalho.

Linda, não?

Para cuidá-la, melhor não a ignorar como um todo... Um tudo. Todos. Todas as suas zonas a se deliciarem e a encararem suas mazelas.

carladias.com



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2 comentários:

albir silva disse...

Sampa, né, Carla? Mas quase todas as metrópoles cabem no seu texto, tão denso e universal que ele é. Quanto à velocidade, pena que acabaram de aumentá-la!

Carla Dias disse...

Sampa, Albir. Esse projeto-vitrine, que não olha por todos. Projeto seletivo. Beleza, nele eu não vejo.