quarta-feira, 19 de abril de 2017

A CULPA NÃO É DA CANÇÃO >> Carla Dias >>


Talvez seja mesmo mais simples do que você imagina. Menos complexo do que aquela canção que marcou a sua juventude, e que não desperta mais tantas urgências em você. Lembre-se: não era a canção que o bagunçava por dentro, mas as urgências que você insistia em cultivar.

A canção apenas aguçava os seus sentidos.

De todas as vezes em que lhe disseram que a vida ficaria mais fácil, a sua resposta foi a mesma: que não aceitaria isso dela. Seus amigos agora podem endossar essa sua certeza, mas com um adendo: não aceitar certas levezas oferecidas pela vida, isolou-o do mundo e da pior forma. Você está por aí, tem endereço fixo, paga contas, tem diploma, às vezes é visto no supermercado. Ainda assim, é como se não existisse.

Aliás, amigos você tem só porque a vida é insistente e os colocou na sua biografia. Dependesse de você cultivá-los – com a dedicação com a qual você costumava cultivar aquelas vãs urgências – sua coleção de afetos seria insignificante, até mesmo para você. Seria uma coleção de abandonos.

Mas, pense bem...  Pode mesmo ser mais simples do que você imagina, apesar de você acreditar que melhor era quando as urgências existiam. Não por causa da canção. Ela era trilha sonora. As urgências? Era você quem dava vida a elas.

E você gostava disso, não?

Viciou-se em urgências que testavam limites. Ultrapassou vários deles, sem se importar se as consequências o quebrassem física e emocionalmente. Permanecia lá, sujeito ao tombo, ao rechaço, ao distanciamento. Submisso ao desinteresse do outro, ainda que ruminando curiosidade cortante sobre o motivo de, eventualmente, os envolvidos nesse seu projeto pessoal, simplesmente se rendessem ao seu desejo e partissem, mergulhando em um esquecimento composto em sua homenagem.

Uma canção silente. Uma ode ao desolamento.

Sua mãe tecia elogios a sua pessoa, orgulhava-se de sua inteligência, mesmo você cometendo torpes deselegâncias, tantas dirigidas a ela. A mulher pensava que se tratava de uma fase, e que ela passaria, quando o adulto se apossasse do jovem. Houve dia em que ela engoliu seco a certeza de que era culpa daquela canção. Claro que, em algum momento, essa certeza foi afrouxada pela constância dos seus rompantes.

Porque, eu já disse, não tinha a ver com a canção... As urgências... Foram elas que nublaram sua percepção sobre pertencer ao mundo.

Há quem fale sobre você como se tivesse participado do seu enterro. Outros gostam de citar seu nome, durante conversas com temas existenciais, como exemplo de como não se viver a vida.  Então, que aí mora a ironia, porque não sei se há como chamar sua existência de viver a vida. Talvez, no máximo, sobreviver a ela.

É mais simples do que você pensa. Abrir a porta de casa e encarar o mundo. Talvez você se surpreenda com a capacidade da vida de nos enredar em situações que lhe causariam frenesi maior do que aquelas urgências que você arquivou na memória. Elas que já não mantêm beat ou fazem sentido. É que até as urgências caem em desuso, quando são desnecessárias.

Insisto: não tem a ver com a canção. Essa apenas embalou a sua jornada de desencontros e uma infrangível insistência em se desviar do desejo natural de ver-se no mundo. Porque também já comentaram, na roda de amigos que você descartou, e daqueles que ainda insistem permanecer por perto, que o mundo se beneficiaria da sua presença, e você das experiências que se espalham por ele.

Abra a porta e venha para o mundo. A juventude já se foi e outras canções foram compostas. E, sim, é mais simples do que você imagina.

Nunca foi a canção, meu caro, tampouco a enfastiosa realidade que o cercava. Foram as débeis urgências que o aprisionaram. As certezas que o serviram.


Imagem: De violiste © Kees van Dongen 



Partilhar

Nenhum comentário: