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O MONÓLITO >> Albir José Inácio da Silva

Ninguém sabe quem viu primeiro. Mas estava lá. No meio da Praça. Onde antes havia uma fonte, agora só restavam duas pedras redondas sem água para represar. Pois atrás delas, bem juntinho, apareceu a coisa. Um cilindro de quarenta centímetros de diâmetro por dois metros de altura que, com as pedras, formavam... um escândalo.

As crianças da escola não queriam mais sair da praça e, quando saíam, era pelas orelhas ou pelos cabelos, fustigadas pelas mães e professoras.

A primeira autoridade a chegar foi o Padre, quase arrastado pelo sacristão que passara antes pelo lugar. O sacerdote, ainda sonolento, arregalou os olhos e gaguejou:

- Mas é um... é um...

- É um sim, seu Padre, e dos grandes. – concluiu o sacristão.

- Que diabo é isso? – era o Coronel, que vinha com o Prefeito e um velho Professor. A reunião na Prefeitura fora interrompida por um jagunço que não conseguia falar e apontava para a Praça.

O Professor ajeitou os óculos e começou:

- Poder-se-ía dizer que o engenho para o qual estamos olhando é um... - foi bruscamente interrompido pelo Coronel, que olhou para a aglomeração que se formava.

- Cale a boca, Professor! Aqui tem moça donzela! Prefeito, convoque uma reunião na Câmara, depressa!

Enquanto isso, a Praça já se enchera de gente. Algumas pessoas olhavam meio de lado. Outras riam. Outras, ainda, se benziam. As irmãs Felício, duas setuagenárias virgens e de vista muito fraca, não reconheceram o objeto. Julgaram que era estátua de santo e acenderam velas sobre as duas pedras. Uns moleques aproveitaram uma poça de lama e fizeram imitações em barro. Foi preciso que o Sargento distribuísse ameaças e pescoções.

Só muito tempo depois, quando a cidade já parecia uma feira, a reunião na Câmara começou.

O Prefeito, como de costume, deu a palavra ao Coronel, que pediu silêncio e mandou que o Professor continuasse o que tinha começado lá na Praça. O Professor ajeitou os óculos:

- Bem, a glande não nos deixa dúvidas de tratar-se...

- Não é por ser grande não, Professor – interrompeu de novo o Coronel – porque essa coisa existe de todo tamanho. O problema é o feitio do bicho mesmo. É um disparate esta cidade ter um negócio desses no meio da Praça.

O Prefeito, indignado, disse que era manobra da oposição para desmoralizar o seu governo. Lembrou que sua estátua, em frente à Prefeitura, já amanhecera de camisola. Iria representar ao TRE, que aquela pouca-vergonha tinha que se acabar.

O Professor, único intelectual presente, obteve a palavra de volta, em meio ao tumulto que ameaçava se formar. Acreditava que o obelisco fosse um artefato trazido por extraterrestres. Precisava de mais estudos para determinar a origem, a finalidade e a razão de tão estranha forma.


(Continua em 18/05/2015)

Comentários

albir silva disse…
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse…
As crônicas desse site são muito boas!! Mão todas <3 <3

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