quinta-feira, 28 de maio de 2015

O LEITE COMEÇOU A ESQUENTAR >> Mariana Scherma

Eu tenho um chinelo que existe desde, sei lá, 1997. É antigo, pesado e confesso que não aguentava mais usá-lo, mas ele não deteriorava jamais. Torcia para que as tiras arrebentassem, rezava para que o solado se tornasse perigosamente escorregadio, mas nada. O fato de esse chinelo ficar na casa dos meus pais e eu só usá-lo em um ou outro final de semana é o segredo da longevidade dele, de certo. Eu meio que já tinha aceitado que ele fosse eterno, apesar de todas as minhas preces. Minha implicância se deve ao fato de ter ganhado chinelos tão lindos, mas, com a minha mania de usar tudo até a última gota, me sentia meio traidora andando pra lá e pra cá com novos chinelos e os antigos, chateados. A culpa do peso deles era do fabricante, ué. E eles eram fiéis, me acompanharam da fase adolescente à adulta.

Até que um dia desses, eu entrei em férias e passaria a usá-los todo dia. Passaria. A primeira parada dos chinelos velhos foi a biblioteca da cidade. Entrei na biblioteca e tropecei feio, virando o pé. Pra minha surpresa: o chinelo arrebentou. Mas eu ainda tinha trezentos lugares pra ir. “Vai descalça”, foi a conclusão da minha mãe, que depois decidiu voltar pra casa pra pegar outro par de chinelo porque “seria ridículo entrar descalça por aí”. Ela muda rápido de opinião. Libriana.

Na hora, me vieram dois ditados à mente. Primeiro: cuidado com o que você deseja, uma hora acontece. Segundo: o leite só ferve quando você sai de perto. A maldita mensagem de WhatsApp só chega quando você desencana. A chuva só aparece quando a sombrinha fica em casa. Sua compra do Aliexpress só aterrissa na portaria quando você nem se lembra mais dela. Ai, tantas coisas só acontecem quando você se distrai delas. Essa história de se esquecer pra acontecer é o que pega. Alguém aí me diz qual o segredo?

Eu tenho uma memória de elefante. Me lembro de absolutamente tudo e vivo fingindo para o universo que esqueci o fulano e que, ok, ele já pode me escrever. Mas o universo é esperto e não cai na minha atuação canastrona. Eu leio um ou dois livros por semana, me acabo de trabalhar (agora, férias, admito), malho feito militar, ouço música, durmo, sonho, mas não esqueço. Nunca. Nada. A vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos, mas não fazer planos, não sonhar é tão confuso, é tão ilógico, é como se você vivesse às vontades do universo que só quer que você se distraia pra lhe surpreender. Vou tentar me desligar da tomada. De verdade, universo. O primeiro passo foi a tira do chinelo arrebentar. Já, já o leite borbulha, confere? Ou não.


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