sábado, 16 de maio de 2015

ATÉ QUANDO? >> Sergio Geia


No meio de arbustos, flores e capins da simpática pracinha, eis que me surge à visão nada mais nada menos que ele. A ficha caiu quando me deparei com a sua silhueta: poxa, faz tempo, hein? Tudo bem que ele está diferente depois do banho de loja: não tem mais aquele logotipo azul da Telesp, nem a cor alaranjada dos tempos em que a Banda de Ipanema era apenas um bloquinho liderado pelo pessoal de “O Pasquim”, mas na essência é ele: a mesma orelha bojuda, a mesma cintura, a mesma perna esguia, o mesmo folião de sempre. Só que muito menos requisitado, isso sim, pela moçada pós-moderna chegada num celularzinho.

Nem sei ainda como ele não se abraçou às remingtons, vinis, leiteiros, limpadores de chaminés, e tudo o mais que foi comido pela modernidade, pra tomar a Sapucaí num demodê desfile de escola de samba de fazer inveja às Tijucas, Portelas e Salgueiros da vida. Aliás, no quesito vinil, tenho uma coleção aqui em casa e, diferente de muita gente, não me desfaço dela por nada. Ainda acho que vou encontrar uma vitrolinha modernosa para tocar Nuvem Passageira, do Hermes de Aquino.

Pois descobri, amigos, que uma chinesa naturalizada brasileira, uma arquiteta, a senhora Chu Ming Silveira, foi quem criou a cápsula de formato oval que o brasileiro, num bullying rasgado, alcunhou de “orelhão”. Por falar em bullying, lembro-me de um amigo com orelhas de abano que sofreu horrores nas mãos de um outro que vivia pedindo ficha pra galera, com a desculpa que queria fazer uma ligação no orelhão da Telesp.

Mas os telefones públicos quebraram o galho de muita gente. Uma ex-namorada, por exemplo. Eu a via na esquina e sentia o Ártico se apoderar do meu estômago. Estava em casa e quando atendia ao telefone, não via a hora de a ficha cair. E ela caía, literalmente.

Aliás, a expressão linguística “cair a ficha” tem origem aí. Ao completar uma ligação num telefone público, uma ficha metálica caía, e se você quisesse falar mais, tinha que ir inserindo fichas; terminava o tempo da primeira, o aparelho comia a outra, e assim sucessivamente. Se a ligação não fosse completada por algum motivo, a ficha era devolvida (nem sempre). Se as fichas acabassem, ao término do tempo da última, a ligação era cortada. Isso no tempo das fichas metálicas, até serem substituídas pelos cartões. Mas a expressão “cair a ficha”, metaforicamente, tem esse sentido: o momento em que você passa a entender uma questão.

Fico pensando até quando esses pândegos vão continuar por aí misturados à paisagem urbana. Meus filhos nunca vivenciaram a experiência superior de falar na orelha bojuda de um telefone público. Se bem que, deixando o romanesco na avenida, acho que não perderam grandes coisas. Muito menos fichas.
 
Ilustração: Joan Miro, Carota, c-1978

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