quarta-feira, 31 de julho de 2013

NÃO LEIA. VOCÊ NÃO VAI SE INTERESSAR POR MIM
>> Carla Dias >>


Eu era feliz e sabia, e andava à toa pela cidade, só para exercitar os pensamentos. E eles me calavam, que nunca foram de ceder a vez. Tentavam me embriagar do que eu não sabia e quase sempre conseguiam. Era ainda mais fácil em dias de garoa, quando eu caminhava à toa e atenta à líquida poesia.

Banhava-me com tentativas de ser feliz.

Só que ser feliz não é para qualquer um. É para cada um que compreende que a felicidade é uma visita, que chega ao fim de tardes de inverno, ensolaradas e lindas, de um jeito que só cabe à vida inventar.

Eu era inquieta e sabia que sabedoria não nasce quando não a queremos nascida. Experimentava o silêncio como se morasse em uma plataforma de partidas, em uma estação de trem, em lugar nenhum. Esperava as chegadas desconhecidas para reconhecer a mim no feito. Chegavam animadas com os beijos, os abraços e as boas novas. E presentes, planos e sorrisos.

Eu era e quem não seria? Feliz e sabia... Triste e sabia...

Sabia que nem sempre a felicidade seria proprietária da minha biografia. Que a tristeza seria a guardiã das minhas memórias, mas apenas de vez em quando. E que nesse equilíbrio - que muitas vezes parece inexistente -, eu guardaria escolhas, desfechos e lembranças.

Eu sou feliz, de felicidade que vive a me oferecer gentilezas. E os meus pensamentos, donos de mim, abrandam ao toque de cada delicadeza. Em dias de garoa, minha alma sorri, e o silêncio é boa companhia. E quando me despeço dele, é com a canção preferida do dia.

Eu sou feliz sempre que posso.

A inquietação me acontece. Aprendo a cada visita dela que questionamentos tendem a ser ótimas ferramentas para reinvenção. Reinvento-me em uma constância carnavalesca, de dentro pra fora, e sempre assim. Muito de mim continua o mesmo, mas não porque eu não soube mudar, e sim por eu ter compreendido que algumas coisas são o que são, e moram na gente assim, imutavelmente. Há quem diga que eu mudei drasticamente, que nunca viu em mim uma porção disso e daquilo. Há em mim a compreensão de que as pessoas nos enxergam somente quando estão prontas para aceitar todos os adjetivos que nos traduzem. E alguns deles são indigestos.

Eu sou inquieta para aprender meu próprio universo.

Imagem: sxc.hu

carladias.com



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terça-feira, 30 de julho de 2013

SERÁ QUE EU OUVI DIREITO? >> Clara Braga

Nessa última semana ouvi duas coisas que me deixaram perplexa e me fizeram acreditar que não, o mundo não está completamente perdido! Fiquei tão abismada que decidi compartilhar com todos, apesar de imaginar que a maioria também ouviu e muito provavelmente também estão tão surpresos quanto eu!

A primeira delas foi em uma das missas do Papa, que é muito simpático por sinal, gostei ainda mais dele depois que ele disse que ateus que fazem o bem ao próximo também são boas pessoas e praticamente afirmou que os ateus também vão para o céu!!! Gente, isso é lindo! Viva esse Papa maravilhoso que falou algo tão importante, afinal, não importa de que religião você é ou se você não tem religião nenhuma, o que importa é que você seja uma boa pessoa e se preocupe em fazer o bem ao próximo, independente de quem seja esse próximo!

Sei que muitos religiosos podem ter odiado o que ele disse e podem estar me odiando por estar tão feliz com o que foi dito, mas uma coisa que sempre me incomodou dentro da minha religião, e percebo que muitas outras são assim também, foi ver que algumas pessoas acreditavam que só pelo fato de estarem ali rezando uma vez por semana, elas eram pessoas ótimas, ou pelo menos muito melhores do que as que não estavam lá. Gente, por favor, não me levem a mal nem achem que estou sendo arrogante, mas vamos parar para pensar, se coloca no lugar de Jesus ou de qualquer ser superior no qual você acredite e se questione: você sente mais orgulho daquele que reza semanalmente ou daquele que apesar de não acreditar em religião alguma, todo dia se levanta com a intenção de fazer o bem ao próximo, que ajuda quem precisa e que não vive para pensar apenas em si? Acho que a resposta de todos é a mesma, né? Digo e insisto nessa história, pois apesar de ter conhecido pessoas maravilhosas através da minha religião, uma das pessoas que me deu a maior lição de vida e que eu admiro muito não acredita em absolutamente nada, mas não deixa de ajudar a quem seja a todo o momento. Gente, se ela não tiver um lugar no céu, na boa, nem eu quero ir para lá!

Enfim, o outro assunto que me surpreendeu ocorreu enquanto eu estava assistindo à novela Saramandaia da Globo. Uma das personagens fez um aborto e se sente muito mal (importante dizer que ela se sente mal fisicamente, e não arrependida), então a sobrinha pergunta o que a tia tem e ela responde: Vou dizer pois você já é uma mulher, estou passando mal pois eu fiz um aborto. A sobrinha, por sua vez, responde: mas você está bem? Uma amiga minha fez um aborto e quase morreu. Isso acontece porque as mulheres não podem fazer aborto abertamente, se não fosse proibido isso não aconteceria. Nós somos donos do nosso corpo, deveríamos poder decidir o que queremos e o que não queremos fazer com ele.

Gente, não importa se você é ou não a favor do aborto, temos que reconhecer que a Globo afirmando isso é algo grande! Enquanto todos fazem propagandas contra o aborto, a Globo mostra que você pode ter uma opinião diferente. Tudo bem, ela não tratou o assunto de forma profunda, mas só de mostrar que existe um outro lado da moeda, para mim já é válido, afinal, nada mais justo do que dar para as pessoas motivos para ser contra e motivos para ser a favor e deixar a pessoa tomar sua decisão com base no conhecimento e nunca com base na alienação.


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quinta-feira, 25 de julho de 2013

ACABA, INVERNO, ACABA! >> Mariana Scherma

Se eu fosse o Super-Homem, meu inimigo mortal seria o frio. Se alguém estivesse precisando da minha ajuda, sei lá, na Antártida, estaria bem ferrado porque só de pensar no lugar, meus superpoderes congelariam. Eu não gosto de odiar qualquer coisa porque odiar é muito negativo, mas o frio, ah, o frio eu odeio, sim. Sou nascida no interior de São Paulo e tenho pais que amavam mais que tudo viajar pra lugares frios. Quando pequena, eu os acompanhava (quem disse que criança tem livre-arbítrio?) e me lembro de uma vez que eles me acordaram às cinco da manhã pra caminhar e sentir o friozinho do inverno da Serra Gaúcha. Acho que foi nesse passeio que virei arqui-inimiga do inverno (mas segui amando meus pais, só pra deixar claro).

Os apaixonados pelo inverno dizem que a estação deixa as pessoas mais elegantes e cheirosas. Pra mim isso é o maior blábláblá. Acho que elegância independe de casaco, dá pra ser bem elegante de saia e regata. E sobre ser mais cheirosa no inverno? Contesto também! O verão empurra a gente pro chuveiro, duas, três vezes até. Agora, o inverno, especialmente nos dias de massa de ar polar... Um minuto de silêncio em agradecimento ao banheiro sempre quentinho da academia. Ok, voltei. Hoje mesmo, eu me olhei no espelho e chorei de rir com essa coisa da elegância do frio. Pantufas de sapo, calça de moletom cinza, blusa de moletom azul-turquesa e luvas azuis não compõem um visual fino, né?

Eu sou dessas que já sofre quando a previsão diz que uma frente fria está pra chegar. Ela pode ainda estar lá na Argentina, congelando os hermanos, e eu já tirei um edredom extra do guarda-roupa pra esperá-la... Fora isso, adoro ignorar o frio, dentro do possível, é claro.  Nessa época, todo mundo se rende às comidas gordas da estação. Eu faço questão de continuar com minhas porções de saladas e frutas. O capuccino transbordando de chantilly vira a bebida oficial, menos minha: que sigo tomando água (e uma dose a mais de café porque não sou de ferro). Minha vitória mais unânime no inverno é a ida à academia religiosamente no mesmo horário. Poderia ir mais tarde ou faltar, mas não me rendo à preguiça. Vou às sete da matina e volta cantando we are the champions, my friend. A friaca não me vence. Dá um orgulho danado, que eu e mais uns cinco alunos que resistem à estação compartilhamos no olhar entre um respiro mais profundo e outro da aula de RPM.

Enquanto, todo mundo sonha em ver neve ou viaja para o Sul pra vê-la, eu sonho em poder migrar de região e passar esses dias trabalhando em alguma praia do Ceará, de chinelo Havaianas, short e a parte de cima do biquíni, na elegância gostosa que o solzão nos dá. A vida é muito curta pra ficar perdendo tempo em colocar casaco em cima de casaco e, ao chegar em casa, trocá-los por blusa de pijama em cima de blusa do pijama. Por essas e outras, que o calor esteja de novo com a gente bem logo. A sorte é que, quando o inverno começa, já começa também a acabar. Que bom!

P.S.: meus pais hoje em dia também detestam o frio e jamais viajariam pro Sul outra vez nessa época. Aquela caminhada na Serra Gaúcha deve ter sido terrível pra eles também...


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quarta-feira, 24 de julho de 2013

MANIFESTO SOBRE INQUIETAÇÕES >> Carla Dias >>


Eu não durmo sem verificar se os chinelos não estão virados. Disseram-me que, se deixá-los assim, a mãe morre. E olha que acreditei nisso e tanto que, mesmo depois de adulta, e consciente de que todas as mães estão a salvo do viramento de chinelos, continuo a desvirá-los, e não somente os meus. Não posso ver chinelos virados que vou logo salvando a vida de mães alheias.

Também não deixo prato sobre a mesa ou pia virar a noite com comida dentro. Pelo que me lembro, assim, de um jeito um tanto desbotado, se deixamos comida no prato durante a noite, um anjo vem e come tudo. E por mais que a ideia de um anjo seja sedutora – falo do fofo, asinhas branquinhas, bochechas rosadas – prefiro não correr o risco de levar susto ao perceber que tem gente em casa, além de mim.

Não leio livro de terror à noite. Apesar de gostar muito de Stephen King, só leio os livros dele enquanto é dia. Saco de Ossos me fez acordar durante um bom tempo às seis da manhã, só para ter uma horinha de leitura, antes de me preparar para o trabalho. Até me esforcei para lê-lo à noite, mas não funcionou muito bem. Era folhear o livro e ter uma péssima noite de sono.

Procuro não assistir a filmes de terror à noite. E se o faço, deixo as luzes da casa acesa... De toda a casa, exceto do cômodo onde está a tevê ou o computador. E dependendo do enredo, acabo dormindo com a luz do quarto acesa, durante a noite em questão, e com a cabeça coberta.

Quando era pequena, achava que o saci morava no meu quintal. Havia dias em que não saía de casa, porque tinha certeza de que ele me encurralaria com seu sorriso matreiro. Meu medo era gostar da ideia de fazer travessuras na companhia dele, e de assim, ter de me mudar para a mata. E eu gostava da minha casa, da minha cama, da minha família. Então, em dias que o sentia por perto, escondia-me dele. Era assim que acabava debaixo da mesa da cozinha ou num canto do quarto, dentro de uma tenda feita com lençol.

Princesas nunca me convenceram, e não me lembro de ter desejado me tornar uma. Talvez porque as roupas delas não se agradassem do meu corpo, ou a ideia de depender totalmente de outra pessoa para ser salva não agradasse a minha cabeça. Sobre finais felizes, meu espírito era nada esportivo – e assim segue... -, porque quem realmente deseja ficar feliz só no final da história?

Durantes em interessam.

Não dormia com os pés pra fora do cobertor, porque tinha medo que algum espírito que não tivesse o que fazer passasse pelo meu quarto e os puxasse. Obviamente, tive de me esforçar para fazer concessões, porque o aquecimento global às vezes pede um pé pra fora do cobertor, do lençol, da cama...

O mar me mete medo que só vendo. E vendo, observando o mar eu o admiro como quem é das águas. Como quem teme, mas mergulha. Só que não literalmente, que não sei nadar. Neste caso, a minha alma mergulha sozinha.

Mergulhos também me interessam.

Imagem: sxc.hu




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terça-feira, 23 de julho de 2013

BEM VINDO, PAPA >> Clara Braga

Essa visita do Papa está dando o que falar! Quem nem liga pra essas coisas estava ligado na televisão acompanhando cada passo. Comentaram sobre a desenvoltura dele ao descer as escadas do avião (invejável mesmo, nem eu desço escadas de avião tão rapidinho), comentaram sobre as pessoas que ele cumprimentou logo ao chegar, falaram de toda a sua rota pelo Brasil, comentaram sobre as manifestações, inventaram que elas eram contra a vinda do Papa e, claro, comentaram sobre ele andando com o vidro do carro aberto!!!

Confesso que essa também me assustou. Não o fato de ele andar com o vidro aberto, mas o fato dele dispensar o uso de carros blindados por considerar isso um luxo. Uma das coisas que eu mais admirei nesse Papa foi a simplicidade, mas confesso que considero carros blindados uma questão de segurança e não de luxo. Até o Papa João Paulo II que era todo carismático e amado por todos acabou sendo alvo de tiro, é algo a se considerar não é? Do jeito que o mundo anda doido, não duvido nadinha que um ou uma perturbada tente matar o Papa.

Fui conversar sobre isso com uma amiga minha e ela, que é muito cristã, me falou que entende e concorda com a atitude dele, pois quem acredita em cristo acredita no destino que ele preparou para nós, e que se não for para acontecer algo com ele, então não vai acontecer. E se for acontecer, essa pode ser a vontade de cristo, então aceitemos o nosso destino e as provas que nos são colocadas.

Ainda não sei o que penso sobre isso, mas confesso que achei bonito. Acho que falta no mundo pessoas assim, não digo só pessoas que acreditam no poder superior, mas pessoas que acreditam, e só! Hoje em dia desconfiamos tanto de tudo que não confiamos mais nem em nós mesmos, é incrível! Eu mesma sou muito desconfiada, e considero isso um defeito meu... Mas confesso, por mais confiante e crente que eu fosse, acho que se eu pudesse evitar um susto com um carrinho blindado, acho que eu evitaria. Confiança assim acho que só o Papa mesmo... e minha amiga.


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domingo, 21 de julho de 2013

O CESTO MÁGICO >> Whisner Fraga

Não sei se é uma cultura recente, mas tenho a sensação que isso não rolava muito há vinte, trinta anos. Falo da permanência, cada vez maior, dos filhos na casa dos pais. Tenho amigos de quarenta anos que ainda moram com seus genitores. Não faço julgamento de valor nenhum, pois é claro que o carinho dispensado por uma mãe não chateia ninguém. Acordar às onze da manhã com um café na mesa esperando pela gente, deixar a televisão ligada e dormir, tendo a certeza que alguém a desligará e assim por diante. Quem sou eu para desvalorizar uma atenção assim?

Mas, além de morar com os pais, dois ou três desses amigos ainda são sustentados por eles! Isso, aos quarenta e poucos anos! Vivem de mesada e têm na ponta a língua a desculpa para a falta de trabalho: querem fazer o que gostam. E, vejam só, gostam de escrever, de pintar, de tocar guitarra, de vagabundear pelas ruas da cidade, atrás de um rabo-de-saia. O que houve? Será que minha geração foi mimada demais? Agora sim, estou fazendo um juízo de valor. Raciocinemos de outra maneira: se todos estão felizes, houve apenas uma mudança cultural, que ainda não engoli.

Mas algum ponto dessa mudança eu devo ter absorvido, porque mantive meus amigos mimados, sem que houvesse qualquer tipo de choque maior. Inclusive, estive com um deles recentemente, em uma dessas festas literárias que se espalharam, felizmente para nós, escritores, pelo país. Perguntei como ia a vida e ele me disse que escrevia um novo romance, que desta vez sua carreira ia ser alavancada, porque apelara para o estilo infanto-juvenil. Bom, todo mundo sabe que a literatura para crianças e jovens atualmente é galinha dos ovos de ouro dos autores.

Como sempre faço, eu o provoquei um pouco. Argumentei que não acreditava em um livro que fosse escrito tendo em mente um público específico. Que romance é romance e a história deve ser escrita sem que tentemos amenizar as coisas, ou tornar uma história mais palatável. Hoje, o que se faz é isso: facilitar o trabalho para o pré-adolescente, mastigar a narrativa. É como a mamãe pardal com seu filhotinho. E, na verdade, o que escuto sempre é isso: vou neste estilo porque é o que dá dinheiro hoje.

Em um certo momento, a conversa foi para o lado pessoal, evidente. Perguntei da mãe deste amigo, que sempre foi muito querida para mim. Quis saber também do seu cotidiano e tudo mais. E, para minha surpresa, ele me confidenciou que estava vivendo sozinho, que alugara um apartamento em um bairro afastado, uma quitinete, e que estava muito contente. E, que, pasmem, estava trabalhando. Nada demais, um emprego meio período. O salário mais a mesada davam para os gastos. Então, ele disse que sentia falta mesmo era do cesto mágico. Evidentemente eu quis saber o que era aquilo. Ele explicou: na casa dos pais, ele chegava em casa e lançava a roupa num cesto e no dia seguinte, a camisa estava pendurada, passada, cheirosa, a calça idem, as meias limpinhas e assim por diante. E que, agora, ele joga a cueca, a bermuda, a camiseta no cesto da casa nova e... Nada. O que acontece é que dia após dia a pilha só cresce e ele não sabe mais o que fazer.



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sexta-feira, 19 de julho de 2013

A APOSTA >> Zoraya Cesar

A coisa começou assim: estava com amigos, todos sacripantas como eu, envergados de tanto beber vodka misturada com outras substâncias legais, quando algum cretino apostou que ninguém teria coragem de dar em cima da nossa gerente e beijá-la sem levar um tapa. Uau, a conversa ficou mais animada, Claudia sempre fora nosso objeto de desejo. E, como é público e notório, homem é fogo, quanto mais inatingível, mais desejada a mulher.

Bonita, eficiente e durona, ela manipulava aquele bando de trogloditas com mão de ferro e sedução. E, como homem não presta, apostamos uma grana violenta naquele que, dentre nós, aceitasse o desafio de beijá-la e viver para contar a história. O feito heróico deveria ser filmado, claro, e mostrado durante um jantar na whiskeria mais cara da cidade, regado a scotch 12 anos. Se fracassasse ou desistisse, o derrotado iria ao jantar travestido de mulher, com direito a acompanhante macho. E pagaria a conta. 

Estúpido que sou, boquirroto e arrogante – mas macho pegador, orgulhoso de minhas inúmeras conquistas-, aceitei o desafio. 

No dia seguinte, sóbrio, percebi a enrascada em que me metera. Amigos, amigos; sacanagens à parte. O bando de urubus ao qual eu pertencia não teria qualquer escrúpulo em divulgar a minha inglória derrota em todas as mídias sociais – eram capazes até de colocar minha foto, vestido de mulher e beijando outro homem, em algum outdoor. Eu faria o mesmo com qualquer um deles. 

Para evitar tal desgraça, resolvi jogar pesado logo de cara e escolhi a quinta-feira, dia em que ela ficava até mais tarde. E quinta-feira chegou, chuvosa, fria, perfeita para uma aproximação romântica. Um certo frenesi percorria os homens do escritório naquele dia, animais a farejar a caça, quebrada, frágil, nas mandíbulas do predador. 

Finalmente todos saíram, ficamos só ela, eu e meus propósitos escusos. Estava nervoso com a magnitude da tarefa: representar os machos da firma e ganhar prestígio entre eles, faturar uma grana e ainda seduzir a chefe. Mas tinha de manter o foco, como bom macho caçador que se preze. 

Entrei na sala de Claudia e iniciei uma conversa mole, entremeando elogios despretensiosos com assuntos de trabalho, para desarmá-la: as estatísticas do departamento tiveram de ser corrigidas, toda mulher devia usar cabelos soltos, as vendas foram melhor que o esperado, ela ficava muito bem de saia... Como são bobinhas as mulheres, mesmo as bem resolvidas amolecem com qualquer elogio, e as que ocupam cargos de chefia tendem a ser carentes, presas perfeitas para um caçador experiente como eu, que também não sou de se jogar fora. 

Entreguei-lhe um relatório, que ela pegou, toda lânguida e charmosa. Minha jugular até latejou, ia ser mais fácil do que pensara. Enquanto ela examinava a papelada, coloquei o celular, já ligado no modo filmagem, numa posição estratégica. Minhas mãos suavam, Claudia não era burra. 

Ela virou-se para mim e sorriu. Era agora ou nunca. Olhei bem fundo naqueles grandes olhos castanhos de corça assustada, que pressente o bote, a luta perdida para o leão poderoso e másculo e puxei-a para mim, beijando-a ferozmente. Ela retribuiu, largando-se nos meus braços. Vitória! Passei para carícias mais audaciosas, tomando cuidado para não deslocar o celular (seria a derrota perder aquele instante máximo de glória). Se soubesse que Claudia era tão carente e fácil, teria dado em cima dela antes. Como são bobinhas as mulheres! Já estava planejando em levá-la para meu apartamento, quando a coisa mais bizarra aconteceu.

Claudia começou a rir. E eu senti um bafo quente no meu pescoço. Aturdido, levantei a cabeça e quase morri de susto.

Bem às minhas costas, Seu Adroaldo, o vigia noturno de 58 anos, um gigante de ébano de mais de 1,80m, forte como um cavalo, cheio de dentes brancos, sorria marotamente para mim. 

Claudia foi direto ao ponto. Havia quase um ano que, às quintas-feiras, ela se entregava a Seu Adroaldo, ali mesmo, no escritório. E já que atrapalhara o idílio carnal deles, seria obrigado a participar de seus joguinhos eróticos, nos quais o único macho alfa era Seu Adroaldo. Era isso ou ele me enchia de pancada, para eu deixar de ser convencido e ter tido a audácia de pensar que ela, Claudia, iria cair naquela minha sedução barata de machista retardado (essa doeu, mas foi a coisa menos dolorosa que me aconteceu naquela noite; vou poupá-los, no entanto, dos detalhes sórdidos).

Eu não tinha muita saída. Seu Adroaldo me olhava de cara feia e eu sabia que ia apanhar feito um cão sarnento se não aquiescesse. Cedi, praticamente chorando. Acho que só não morri porque não era minha hora. Jogo jogado. Eu queria pegar a chefe, mas quem me pegou - e pegou pesado - foi Seu Adroaldo. A vida tem dessas coisas. Macho que é macho enfrenta as adversidades de cabeça erguida, mesmo que as pernas estejam bambas. 

No dia seguinte não fui trabalhar, por motivos óbvios. Apaguei tudo do meu celular. Fiz reserva na tal whiskeria e aluguei meu vestido. Macho que é macho tem de ter fair play


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quinta-feira, 18 de julho de 2013

POR FAVOR, CUIDE >> Fernanda Pinho



Ganhei da minha amiga Samara um livro chamado “Por favor, cuide da mamãe”, da escritora coreana Kyung-Soon Shin. O livro conta a história de uma senhora, mãe de cinco filhos adultos, que se perde do marido na estação de trem de Seul e desaparece. As pouco mais de duzentas páginas narram a busca dessa família por essa mulher. A trajetória é angustiante não apenas pelo medo inerente à situação mas, principalmente, pela dor de cada personagem que precisou sofrer da ausência dessa mulher para se dar conta da presença dela. Angustia porque a gente se identifica. Muitas e muitas vezes colocamos nossas relações no modo automático e não paramos para de fato perceber o outro. Mesmo com aqueles que mais amamos. Aliás, principalmente com aqueles que mais amamos.

Numa das passagens do livro, uma das filhas conta como a relação com mãe tornou-se diferente depois que ela saiu de casa. Como foi estranho, de repente, se tornar uma visita na casa onde nasceu e foi criada. Fiquei particularmente apegada a essa passagem porque é um fato recente na minha vida. Há um ano e três meses saí de casa para vir morar no Chile e, agora, quando vou ao Brasil eu sou visita na minha própria casa. Na teoria ainda é a minha casa. Na prática, algumas coisas mudaram, sim. Existe uma faxina especial que precede minha chegada. Nos dias em que estou lá, minha comidas preferidas fazem parte do cardápio. Às vezes tem até uma roupa de cama nova e temática esperando por mim e meu marido. Isso, da parte deles. Da minha parte também mudou alguma coisa. As roupas que eu uso estão na mala, e não no meu bom e velho guarda-roupas. O apartamento que antes eu achava pequeno demais para a família, ficou grande agora que eu moro em um muito menor. E o cheiro, meu Deus, o cheiro daquela casa é o melhor do mundo.

Esses dias peguei para usar uma camisa que foi lavada pelo última vez pela minha mãe, há duas semanas quando eu estava lá, em Belo Horizonte. E quando peguei a camisa senti aquele cheiro. O cheiro da casa dos meus pais. O louco disso é que, enquanto eu morei lá, eu nunca soube que a casa tinha um cheiro. Eu nunca senti esse cheiro. Porque, claro, eu estava viciada. Eu estava lá todos os dias, preocupada em viver minha vida, não parava para sentir nada. Nunca parei para prestar a atenção no cheiro da minha casa.  E é por isso que esse livro me tocou. Não só pelo cheiro, claro, mas pelas tantas outras coisas que deixamos desbotar por não dar a devida atenção.


Os gestos que a gente ignora. A dor do outro que a gente prefere fingir que não vê. As palavras que entram num ouvido e sai no outro. Sabe, por que a mãe da gente sempre nos manda comer e levar uma blusa de frio? Será que é mesmo só chatice? Será que é só vontade de sempre dizer a mesma coisa? Que sentimentos e motivações estão por trás desse conselho chato? E por que o amigo diz que estamos sumidos? Por que a avó reclama que a gente não aparece? Por que a esposa insiste em te lembrar alguma data especial? São tantas coisas que a gente deixa passar batido. Tanto pedido de socorro que a gente deixa ser atropelado pela rotina. Tanto sentimento que vira só mais um cheiro no ar viciado.  Ainda bem que existem os livros para nos enviar alguns lembretes de vez em quando. Este último, me deixou com uma vontade danada de ficar mais atenta.


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quarta-feira, 17 de julho de 2013

O PLANO >> Carla Dias >>


Acordou, levantou-se, banhou-se, alimentou-se, tique-taque, cabelos penteados, roupa para inverno e verão em um mesmo dia. Ela sai de casa cedo, na bolsa todos os medicamentos do menu, e também os documentos para garantir que não sofrerá de anonimato no único momento em que exige ser reconhecida. Tem medo lancinante de morrer e jamais voltar para casa, tudo por culpa do RG largado sobre a penteadeira.

Durante o caminho, ônibus lotado, falatório indigesto, ela pede ao Deus que apague os verbos das bocas dos que só sabem usá-los no modo ofensivo. Anda enfastiada de escutar maledicências, presenciar o destrato recorrente de quem só sabe dizer sobre o outro as perversidades. E ainda que elas sejam pertinentes, certamente não são da sua conta.

Desce do ônibus, um zunido endiabrado em seus ouvidos, ecos das histórias do coletivo que, nem de longe aponta para a coletividade. Então que lhe bate a sensação de estranhamento, a consciência berra que ela mesma pode ser a peça fora do lugar nesse tabuleiro, que assim como os passageiros do ônibus, talvez Deus deva lhe calar os verbos.

E o que ela faria sem eles nesse hoje? Justo hoje? O que seria de seu plano tão bem elaborado, anos de desenvolvimento, detalhes tantos profundamente estudados. O que seria do que lhe ocupou noites inteiras, mandando-lhe para o trabalho com os olhos vermelhos e cansados, a alma temendo dias úteis e horários comerciais e telefonemas urgentes?

Decididamente, aceita que não pode ser privada dos verbos. Não hoje, meu Deus!

Seu cubículo na empresa, lugarzinho enfeitado por manchetes, no qual desempenha seu papel de funcionária por quatro meses escolhida como a mais eficiente, é dos mais organizados. Ali ela pesquisa, fala com suas fontes, desenvolve seus artigos. E apesar de funcionária de destaque, é das pessoas mais reservadas do lugar. Às vezes, ao escutar as gargalhadas dos colegas de trabalho, sente-se enciumada pela alegria deles, uma alegria que surge fácil, até durante os cinco minutinhos para o cafezinho.

O seu cafezinho ela toma sentada na cadeira ao lado do bebedouro, na cozinha. Acontece de um e outro entrar para seu intervalo e nem notá-la ali. Mas ela não culpa o mundo, ou as outras pessoas, pela sua incapacidade de interagir. Na verdade, a sua posição de observadora lhe apetece, não a agride. Não fosse aquele sentimento estrangeiro, seu espírito estaria em paz.

Ali mesmo, sentada para o cafezinho, ao lado do bebedouro, aprendeu a contemplá-lo. Não é lindo com a lindeza que as meninas, as que pegam o ônibus para irem à escola, apreciam, enquanto folheiam as revistas de celebridades. É belo como a poesia das deleitáveis canções de amor. Nunca se imaginara mergulhada nesse tipo de apreciação distante, da observação dos gestos, da entoação das palavras, do apegar-se ao ritmo do dizer os fatos com a eloquência da gentileza. Porém, nele encontrou porto para o olhar, dele furtou a capacidade de escutar sem se distrair, o que inspirou nela a alegria de existir no mesmo mundo que ele.

E demorou muito a assumi-lo amor. Delegou ao sentimento, durante muito tempo, o significado de empecilho, porque ele a atrapalhava, não permitia que fizesse um bom trabalho. Até o dia em que foi ele a entrar na copa para se servir de café, bem na hora em que ela estava lá, na companhia silente do bebedouro. E sem se apegar ao jeito dela de se safar das conversas, sentou-se, contou-lhe sobre o dia atribulado que estava tendo, sobre a dificuldade em escrever um artigo sobre filantropia, já que a maioria dos filantropos lhe parecia mercenários em busca de melhorar a própria imagem. Então, que ela não conseguiu deixar de se enfiar nas entrelinhas, de contemplar os detalhes. Imergiu nos trejeitos dele, chegou até a participar ativamente da conversa.

Descobriu-se ao aceitá-lo amor.

O seu plano é simples, não pede grandes produções. Parada à porta, observa-o a conversar animadamente com seus colegas. Ela vê, claramente, a facilidade com a qual ele envolve as pessoas. Ele não sabe o que virá, mas ela se preparou para este momento, vai dar certo.

Ele não é homem para ela, ou não seria ela mulher para ele? Que seja... Fato é que, nesses anos todos, e apesar do afeto que ele escancaradamente sente por ela, ele nunca lhe ofereceu a possibilidade de ser uma das mulheres que ele tentou amar. Ela nunca tentou conquistar essa possibilidade.

No seu cubículo, já não há folha fora do lugar ou resquício de sua presença. Apenas a bolsa repousa sobre sua cadeira. Ela a pega, e sorrateiramente deixa o recinto. Afinal, assim planejou, portanto não há espaço para improviso. Aproxima-se dele, que lhe acena, sorrindo, como se ela estivesse de passagem. Mas para a surpresa dele, ela para a sua frente, bloqueando a visão do público, que inicia um falatório miúdo, por estranhamento.

Deus não lhe privou dos verbos, não hoje. E como ela adora os verbos, provavelmente mais que os adjetivos. Talvez o problema esteja aí... As pessoas dão valor demais aos adjetivos mal aplicados, combinando-os aos verbos que levam às ações mais fáceis. Mas não ela, que se tornou destaque colocando adjetivos e verbos certos a serviço dos sujeitos merecedores.

Ela começa a falar e as pessoas a sua volta se calam. Conta a ele sobre o começo ao momento atual de seu sentimento, como se ele fosse um personagem de livro. Não engasga, ainda que a voz, às vezes, saia entrecortada. E depois, confissão assinada com olhar, sorri e vai embora, deixando a ele e aos espectadores atrapalhados com seus pensamentos.

Nunca pegou ônibus nesse horário. Além de praticamente vazio, o silêncio é aprazível.  Percebe que gosta de olhar a paisagem, de se perder em pensamentos desapegados da rígida rotina que mantinha.

Uma senhora pede licença e se senta ao seu lado. Sorrindo, comenta que está voltando de um encontro muito agradável com os amigos. Então, ela começa a lhe contar sobre cada um desses amigos, e os adjetivos são agradáveis, os verbos são gentis. E ela se sente livre.

Enfim, seu plano dera certo.

Imagem: Galátea das Esferas/Salvador Dalí

carladias.com

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sábado, 13 de julho de 2013

PEQUENA CRISE [Ana González]

Na vida, temos crises de todos os tipos. As esperadas e as inesperadas, os suplícios e os tsunamis. E há também as mais leves, as sutis que quando chegam nem percebemos. Caímos em uma rede invisível, abstrata e não nos damos conta disso. Como quem não sabe nadar, nos debatemos com cenho apertado e olhar murcho. O incômodo leva um tempo. Mas um dia acaba e nos salvamos do aprisionamento.


Foi assim com minha câmera fotográfica. Recentemente resolvi fazer um curso de fotografia. Nada muito sério, puro lazer. Sempre exercitei a alegria de ver imagens acontecerem, sem técnica alguma.  A proposta era aprender os recursos dessa arte. Mandei consertar a máquina Pentax que estava quebrada e guardada há muito tempo, suficiente para eu me acomodar com a Cybershot pequena, digital e prática. Sem saudades da outra.

Com professora e a turma do curso, andei por aí. Com a máquina antiga pronta para clicar, estive no Minhocão uma manhã de domingo. Outra vez, em saída noturna, pela Avenida Paulista, com tripé e filme 400 ASA. Uma espécie de aventura em território conhecido. Na terceira saída, foi a vez de um domingo inteiro pela histórica e delicada cidade de Paranapiacaba, entre trilhos, fumaça de uma velha máquina de trem que apitava de vez em quando, neblina que tornava poética toda a paisagem para turistas ansiosos por aquele ambiente do século dezenove.

Mas, algo acontecia dentro de mim.  Comecei a perceber ao longo das semanas que fazer fotos era mais difícil do que eu imaginava. Estranhamente não era mais tranquilo o gesto de colocar os olhos no visor da máquina, regular luz e abertura naquela que um dia tinha sido minha companheira íntima.

E isso foi me paralisando aos poucos. Um estranhamento deixava as ideias pela metade e eu me negava a fazer os cliques de possíveis fotos. Querendo estar à vontade, eu mentia para mim mesma. Sem entusiasmo, só tinha vontade de perceber os detalhes de tudo que estava sempre pronto para receber o meu gesto de surripiar um pedaço da beleza, de roubar algo do cenário, de fazer o registro de um canto.

A dificuldade técnica - que eu tanto desejara aprender - me surpreendera. Me frustrara. Detalhes demais, rapidez e habilidade a ser desenvolvida. Muito treino seria necessário.  Teria que queimar muito filme para me apropriar dos recursos. A poesia de minha imaginação confrontava com a dureza da técnica. Realidade que eu era obrigada a perceber: a incompetência. Mal estar.


A máquina agora pesava como nunca. E, na verdade, tal fato não mudava nada em minha vida. Então, por que me importunava tanto?  Talvez porque fosse o fim de um desejo. Nos ombros, havia a presença de um desassossego pela alegria desfeita. Difíceis momentos de um passado recente.

Mas, já passou, -  procuro dizer a mim mesma como se diz a uma criança magoada. O clique resistirá. Eu não poderei largar o vício desse barulhinho. Sobra muito além dele. Sobram as centenas de fotos preservadas, os negativos organizados por datas. Um corpo enorme de memória construída.

Sobra ainda o respeito e o carinho pelo trabalho dos fotógrafos que fazem da beleza sua expressão existencial. Sobra em mim, principalmente, alguma escondida coragem de continuar na busca de imagens. Sobra o desejo delas refletidas pela lente da câmera. Sobra o meu olhar que vaga pelo mundo à espreita.

Com os pés fincados no chão, as mãos firmes na câmera fria. O corpo flexível e a possibilidade de surpresa, o calor de um meio sorriso na boca. Ainda estarei lá, na escuta e no gesto, presença ativa.

www.agonzalez.com.br

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quinta-feira, 11 de julho de 2013

VOCÊ QUER REVANCHE DE QUÊ? >> Mariana Scherma

Eu não entendo muito de lutas, MMA, UFC e lálálá. Quer dizer, eu entendo zero dessa suposta nova paixão brasileira (e adoraria sugerir uma enquete pra ver quem gosta meeesmo disso). Não gosto nem de assistir porque é muito soco e eu sou a favor do beijo, da amizade, do carinho, das mãos dadas, enfim. A única parte das lutas que eu adoro é a pesagem, quando rola aquele olho no olho, aquele climinha fofo. Sempre fico na torcida porque, no fundo, sou uma romântica incurável... Nessa, última do Anderson Silva rolou um selinho e pra mim deveria ter terminado nisso. Os dois ganham, ué.

Mas não, quem ganhou foi o tal do Chris Weidman. O Facebook também ganhou um novo assunto, todo mundo falando que Anderson tinha sido comprado, tinha feito isso, aquilo e aquele outro. Eu, que no sábado à noite, nem lembrava que teria luta, no domingo de manhã sabia de to-dos os detalhes só por conta de uma olhadinha na timeline. Se o que o Anderson fez tá certo ou não, não sei. Eu gosto de futebol e vôlei, é o máximo que entendo. Só acho que todo esporte deveria ter essa regra do UFC: pedir revanche. Não só o esporte, a vida deveria nos dar direito à revanche, à melhor de três, quatro, cinco... Já pensou?

Este ano, meu Corinthians foi eliminado rapidinho da Libertadores. Revanche urgente contra o Boca Juniors. Não ia dar certo, é claro. Nenhum campeonato chegaria ao fim, mas se o que importa é o caminho... Imagina então quem perdesse do Corinthians, todos querendo revanche. Óbvio que essa nova regra vai contra a máxima de todo atleta “o que importa é competir”.

Pra vida, talvez isso desse certo. Revanche de quando você teve que falar em público e gaguejou e, de brinde, trocou as palavras. Melhor de três encontros pra conquistar o cara. Revanche daquele dia em que você perdeu de goleada pra TPM ou de quando falou o que não devia perto de quem não deveria ouvir. Ok, vai, pedir revanche toda vez ia ficar chato. Talvez a gente devesse ter direito a um número limitado desses pedidos. E pra ser sincera, juro que não me lembro de nenhum momento tão constrangedor que me fizesse querer um melhor de dois ou três. Como cantam os Los Hermanos, faço o melhor que sou capaz só pra viver em paz. No fundo, a vida até nos dá direito de revanche, depois de muito tempo.


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quarta-feira, 10 de julho de 2013

UMA HISTÓRIA DE AMOR PARA VALER A PENA
>> Carla Dias >>


Ok, eu sei que o nosso país está em polvorosa, que há outros em guerra. Também sei que ainda morrem pessoas de fome no mundo, que alguns políticos poderiam muito bem ser definidos, sem erro, como verdadeiros psicopatas, que terminar o mês com alguns reais no bolso é um tipo de milagre. E que na família de todos há aquele que mata os outros de preocupação, que na escola há o colega que cutuca a alma já dolente do seu colega. E que, de colega em colega, engorda-se as estatísticas relacionadas ao bullying.

Eu sei... Sei que o mundo gira, entontece alguns, embrutece outros, amarga a tantos.


Só que então vem um poeta, ou um porteiro de prédio apaixonado, e fala de amor como se não houvesse outro sentimento que valesse a pena sentir, ainda que, amar também implique em sofrer, de vez em quando. Sofrer faz parte de sentir o que for, assim como ser feliz. Trata-se do conteúdo diverso de um importante livro: o da vida.


Portanto, confesso, alego, assumo, assino embaixo da declaração de que eu sei... A vida nem sempre é fácil, sapatos apertam os pés, prédios desabam, pessoas ferem pessoas, às vezes com requintes de crueldade. E acontece de o “tá tudo certo” dar bem errado, e nos acharmos uma grande porcaria sentada na beira do lugar nenhum, desejando o fim do mundo.

Eu sei...


Porque conheço o sorriso dos que amo, reconheço o amor quando abraço – sempre apertado e demorado – os meus afetos, aceito as gentilezas que me oferecem com o coração tamborilando agradecimento. A felicidade é essa coisinha miúda, e que quase sempre chega em partes, como episódios de série de televisão, mantendo-nos ansiosos pelas próximas cenas. Fazendo com que imaginemos um roteiro para elas, tamanho desejo de conhecer desfechos.


Viver é complicado sim, mesmo quando desejamos, quando nos dedicamos a levar a vida à mercê das simplicidades.  Mas o que pode ser mais simples que um olhar? E como pode ser poderoso esse olhar, o prefácio de uma série de acontecimentos nem sempre palatáveis, ainda que descambem em final feliz que é começo.


Só que sempre haverá um poeta, um astronauta, um porteiro de prédio, uma top model, um dono de boteco, uma garçonete, uma empresária, um astrônomo, um gari, uma dona de casa, uma advogada, um policial, uma juíza, uma bióloga marinha, um escritor, uma pessoa que se apaixonará pela outra, e por ideais, e por escolhas. E esse amor valerá a pena. Valerá uma história.


Poema Presentes, do Livro das Confissões.





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terça-feira, 9 de julho de 2013

É TUDO COMPRADO!!! >> Clara Braga

Agora tudo aqui no Brasil é comprado! Desde resultado das campeãs das escolas de samba a jogo de futebol, tudo é comprado! Até pouco tempo só se falava no tal jogo do Brasil contra Espanha que foi comprado para abafar as manifestações, e o pior é que nesse ai eu acredito fielmente que foi comprado mesmo. Agora, a polícia está atrás do apostador que ganhou rios de dinheiro porque sabia que Anderson Silva perderia a luta, ou seja, foi comprada também!

Sobre a luta eu nem consigo emitir opiniões, pois não entendo absolutamente nada de luta, mas vi que os comentaristas do Sport TV ficaram arrasados com o resultado e todo mundo agora só faz criticar a atitude arrogante e desnecessária do lutador. Não há mesmo quem não se irrite com uma pessoa que só faz gracinhas e fica tirando sarro da sua cara, mas na minha opinião isso chama-se estratégia, alguns se irritam tanto que desconcentram, erram nos ataques e é aí que o arrogante ganha, como vinha ganhando há anos e todo mundo achava genial a forma como ele lutava. O problema da tática de se gabar demais é que quando você perde fica feio, parece que você foi desrespeitoso.

E agora, enquanto as pessoas passam tempos e tempos se ocupando de criticar e questionar a atitude do Anderson Silva, ele se limita a dizer apenas uma coisa: tirei um peso das minhas costas! Gente, comprada ou não, o cara tá feliz, ele falou de forma super serena nas entrevistas, falou que agora vai ter tempo para a família, disse que fez a parte dele e que agora é bola pra frente. Ele realmente estava com um ar de quem estava tirando um grande peso das costas.

Outro dia durante uma conversa com meus colegas de trabalho, alguém questionou: mas então, o que realmente importa no final das contas? E eu disse: sinceramente gente, no final das contas eu acho que o que importa é ser feliz. O problema é que as vezes, quando a gente segue o caminho que nos vai fazer feliz, algumas pessoas que  discordam da nossa atitude ficam decepcionadas, e quando você é uma pessoa pública a quantidade de pessoas que você pode decepcionar rapidamente é mil vezes ou milhões de vezes maior.

Mas o curioso mesmo é observar que enquanto a gente se chateia, critica e tenta arrumar argumentos para justificar aquela atitude com a qual não concordamos, a pessoa que seguiu seu caminho já está lá na frente, apenas sendo feliz. Não é impressionante o tempo que gastamos cuidando de coisas que nem vão modificar nossa vida enquanto podíamos estar cuidando de sermos felizes?


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segunda-feira, 8 de julho de 2013

CIDADÃO ROSWELL >> André Ferrer

As teorias conspiratórias jamais estiveram tão domesticadas. Em 1947, um caso como o de Roswell contava com poucos meios capazes de desmistificá-lo. Nada analítica, a grande mídia favorecia o obscurantismo e tornava tudo ainda mais selvagem do que realmente era. Não que as coisas tenham mudado muito. A mídia continua sensacionalista e gananciosa. O que mudou de lá para cá foi o modo como a notícia chega ao cidadão. Este pode domesticar a maioria das ameaças que se apresentam.

Basta imaginar o processo de domesticação e domínio a que, ao longo dos tempos, o homem tem submetido coisas e viventes ao seu redor. Para o nosso bem-estar, desenvolvemos artifícios capazes de reafirmar diariamente o nosso domínio sobre as potenciais ameaças. E a Internet, uma vez mais, veio para facilitar o trabalho. No YouTube e no Facebook - principalmente nas caixas de diálogo destinadas aos comentários -, a reiteração do domínio em relação a determinados conteúdos ameaçadores aparece na forma de ironia ou sarcasmo. Em contrapartida, um sem-número de “deus-me-livres” resiste como que advertindo sobre o perigo de “abaixar a guarda”: "sim, o animal é doméstico, mas ainda é um animal, ele tem a imprevisibilidade dos animais". É, portanto, esse amálgama de posturas, ora irônico ora temente, que me permite, nesta crônica, fazer a seguinte afirmação a respeito da sociedade atual diante das ameaçadoras teorias conspiratórias: ao longo da História, elas jamais estiveram tão domesticadas.

Há exatos 65 anos, a grande mídia norte-americana continha basicamente os jornais, as revistas e as emissoras de rádio (a TV, mesmo nos EUA, engatinhava).  Entre o cidadão e a verdade dos fatos, havia muitos interesses e as distorções próprias da imaginação atormentada pela cobertura da última guerra. Desde a rendição alemã, o mundo se dividia em dois blocos: a Guerra Fria estava nos seus primeiros capítulos naquele dia 08 de julho de 1947.

Hoje, com o planeta fragmentado e o rosto do agressor completamente desfocado, aquele cenário até parece brincadeira. Fico imaginando um "11 de Setembro" em plenos anos de 1950 ou 60. Ora, com os sistemas de comunicação precários da época, um russo ou um americano apertaria o botão do Holocausto Nuclear antes que a CIA ou o FBI descobrisse a verdade sobre os atentados. No mínimo, vai, teríamos pânico e gente cometendo suicídio em massa nos hemisfério norte ou aonde os tabloides e as ondas de rádio pudessem chegar.

Exagero da minha parte? Ainda em 1938, um jovem radialista chamado Orson Welles provocou algo bem parecido nos EUA. Welles adaptou um romance de ficção científica, A Guerra dos Mundos de H. G. Wells, para o rádio. Um detalhe: a novela radiofônica mais parecia um noticiário. Assim, desinformados e crédulos de todo o país viveram momentos de terror. Afinal de contas, a Terra estava sendo invadida por um exército alienígena!

Informação: eis a chave do poder. O próprio Welles investigou e denunciou o uso abusivo dessa "chave" no filme "Cidadão Kane - O mundo a seus pés" de 1941. Nesta obra-prima, é evidente que se controla o medo próprio e o medo alheio através da informação. Todo sistema de controle, em qualquer nível, dependerá do quanto as pessoas estejam assenhoradas de determinados conhecimentos. Hoje em dia, isso é claro. Inadmissível, com tamanha clareza, que ainda haja subserviência e degradação. Diferentemente do que acontecia na metade do Século XX, 65 anos atrás, o cidadão se encontra mais livre e conta com informações capazes de fundamentar pontos de vista individuais. Atualmente, as pessoas têm poder de argumentação.  Elas podem enfrentar os Kane da mídia desde que produzam suas opiniões de forma racional. Elas podem domesticar quaisquer ameaças, livres, a despeito de tutores, de modo independente.


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sexta-feira, 5 de julho de 2013

A MELHOR SOGRA DO MUNDO >> Zoraya Cesar

Encontrar um homem bom é como encontrar agulha num palheiro, diz um ditado, e quando Dedinha encontrou Josualdo, honesto, carinhoso, trabalhador e, acima de tudo, casadoiro, as amigas correram a acender velas a Santo Antonio, também queriam um assim. 

Quando tiveram certeza de que se davam muito bem nos quesitos cama, mesa e banho, resolveram se casar. E, como quem casa quer casa (meu Deus, essa é mais antiga que máquina de escrever), alugaram um quarto e sala lá mesmo no subúrbio onde moravam.

Mas – e sempre tem um “mas” -, Josualdo era filho único de D. Sulamita,  Sulinha, que enviuvara quando o menino tinha sete anos e o criara sozinha, trabalhando numa padaria de madrugada e fazendo faxina durante o dia. Ele morria de amores por essa mãe extremada. Ela morria de orgulho desse filho, contador e funcionário público. E D. Sulinha, já velhinha, mirradinha, veio do far, far west, digo, no rancho fundo, bem pra lá do fim do mundo, para o casamento. E, como não tinha onde ficar, hospedou-se com o novo casal, assim como o cachorro que trouxera, mal cheiroso, babento e remelento que fungava e rosnava cada vez que via Dedinha.

Ohhhh, dirão vocês, que loucura, morar com a sogra! Pois se tem gente que mata ou morre para não passar por isso... seria apenas por alguns dias, Dedinha não se importou. Até porque Josualdo estava feliz e a sogrinha fazia de tudo para agradá-la, até nos desacordos do casal D. Sulinha apoiava a nora querida, moça boa. Sogra melhor, impossível.

D. Sulinha era um doce, realmente, mas os dias e semanas estavam passando e ela foi se acomodando. Passou a gerir a casa do jeito que lhe aprazia, que não era do jeito que Dedinha gostaria: a geladeira estava sempre entulhada de restos de comida (“estragar é pecado”); as coisas mudavam constantemente de lugar, Dedinha não conseguia encontrar coisa alguma; o cheiro de pinho sol foi substituído pelo de creolina (“realmente mata os germes”); Dedinha arrumava os travesseiros sobre a colcha ao sair, mas, de noite, encontrava-os no armário (“para não pegarem poeira”). E tudo D. Sulinha fazia de um jeito tão gentil, que a nora se sentia uma crápula por se irritar. 

Mas não era só isso, oh, não! D. Sulinha grudava que nem visgo de jaca. Era Dedinha entrar no banheiro que a sogra batia à porta, perguntando se estava tudo bem. Às refeições, D. Sulinha enfiava o dedo nodoso no prato da nora, para ver se sua Dedinha querida não estava comendo comida fria. Era a nora sentar para estudar, que a sogra sentava bem em frente, não vou incomodar, vou ficar quietinha, quer um chazinho? Dedinha atrasava dez minutos para chegar, e D. Sulinha ligava 20 vezes para o celular. Um dia ela se revoltou e resolveu não atender, mas foi pior. A sogra pensou que ela tinha morrido e, ao chegar em casa, Dedinha encontrou a velha e as vizinhas aos prantos, segurando velas acesas e rezando para a sua alma  seguir em paz. 

Foi nessa noite que Dedinha começou a tomar calmantes. 

O que vocês acham? Dedinha era fresca ou D. Sulinha exagerava? Vou ajudá-los a decidir: 

A dentadura. A velha esquecia a coisa em todo lugar, menos no recipiente próprio para guardar algo tão íntimo. Dedinha já encontrara a dentadura na sua cama, dentro da saboneteira (com o sabonete), no sofá e até na geladeira. Mas a gota d’água foi encontrar a coisa dentro da sua bolsa, ainda meio úmida, como se tivesse acabado de sair da boca da velha - que teve desplante de agradecer melosamente por ela ter encontrado seus dentinhos. 

Nesse dia Dedinha começou a sentir um ódio verruguento e rançoso pela sogra. 

Que, aliás, vivia perguntando quando viriam os netinhos. Que netos, sua desgraçada louca, desesperava-se Dedinha, se mal posso ficar a sós com meu marido? 

(Dedinha, claro, não reclamava com Josualdo, que ela não era besta de perder marido tão amoroso, cuidadoso e, nas poucas vezes que experimentou, gostoso). 

Outro detalhe que enlouquecia Dedinha lentamente era o maldito hábito da velha ficar olhando enquanto eles dormiam. A cama do casal era um estrado no chão e de domingo a domingo Dedinha acordava e dava de cara com os cambitos descarnados e ossudos da sogra, que estava a fitá-los, esperando que acordassem para fazer o café.  Uma noite, Dedinha acordou às quatro da manhã, só para não encontrar a velha a fitá-la. Na noite seguinte, ao fazer a mesma coisa, deu de cara com a sogra, que perguntou, pressurosa e baixinho, quer café, minha filha?

Nessa hora, nesse exato momento, Dedinha começou a rezar pela morte da velha. 

Não sei se a reza foi forte ou se foi o destino, mas o fato é que alguns dias depois D. Sulinha morreu de uma hora para outra. Dedinha teve um ataque histérico durante o enterro e todos ficaram muito comovidos, nunca viram uma nora tão compungida com a morte da sogra. 

Naquela noite Dedinha demorou a dormir, em êxtase, finalmente ia ter paz. Acordou feliz, e, realmente, não deu de cara com os cambitos da finada, mas com os olhos acusadores e remelentos do cachorro, que pareciam dizer: eu sei o que você fez com ela, mas eu ainda estou aqui. Dedinha começou a gritar. 



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quarta-feira, 3 de julho de 2013

19 ANOS E 1 DIA >> Carla Dias >>

Uma pessoa de dezenove anos e um dia, certamente pensa muito diferente de mim, com quarenta e dois anos, oito meses e sei lá quantos dias. Isso não é ruim, até porque, vai saber se essa pessoa, na sua amiúde idade, não pensa com mais sensatez que eu, com a minha maturidade taciturna.

Fato é que não tenho pudores, aviltamentos ou dúvidas em escutar alguém tão mais jovem que eu, tampouco mais velha. Na verdade, abraço a possibilidade de ser surpreendida pela sabedoria de uma pessoa em qualquer idade. Prova disso é a tamanha importância que dou aos comentários dos meus sobrinhos, mesmo quando estão rindo da minha cara, e de todos os senhores e senhoras que sempre me escolhem para bater-papo, enquanto esperamos o ônibus.

Sabedoria é o tipo de coisa-importância que, quando a evitamos, pula na nossa frente. E se depois de se mostrar todinha, ainda insistirmos em ignorá-la, bom, aí já é problema nosso.

Mas nem pensem que 19 anos e 1 dia é a idade de alguém. Na verdade, é a idade de um feito que guardo com o maior apreço no armarinho das lembranças de ouro. E se você pensa que vou contar que apreço é esse, pode tirar a sapequice da chuva, da rua, da fazenda. É segredo que guardo de mim, confessando-o, ano após ano, na mesma data. Daí acontece um relembramento, e eu fico melancólica, vou escrever poesia e volto mais tarde, pronta para o esquecimento até a véspera, o dia e o dia seguinte.

Amanhã passa.

Há 19 anos e 1 dia eu cometi uma ousadia, mas foi ousadia das graciosas, daquelas que somente uma pessoa completamente entregue às delicadezas da vida pode contemplar. Não sei se a ousadia em si ainda é o sujeito desse meu objeto de lembrança, ou se o personagem principal é a saudade que sinto daquela que eu era naquele momento. Daquela pessoa capaz de cometer uma emoção com tanta eloquência.

Não tenho um filho de 19 anos e 1 dia, tampouco guardo badulaque que lembre a data. Está tudo na minha memória, que insiste em ser seletiva, fazendo-me esquecer de dados importantes para o diariamente e gravando ternurices na minha cachola. Às vezes, essa seleção natural – que beneficia muito mais os meus sentimentos, com todos os seus direitos e avessos – me espanta, porque aprendemos a praticidade para se executar as tarefas cotidianas, de forma a imaginarmos que jamais nos esqueceremos da utilidade da logística para uma rotina beneficente às nossas necessidades básicas...

Até endoidecermos de afeto.

São muitos anos, muitos dias que me separam daquele momento, daquela ousadia, daquela pessoa que eu era. E todas as vezes que penso que esqueci, basta a data chegar que acesso o filme, revejo as cenas, reafirmo a importância daquele momento acontecido há 19 anos e 1 dia, e que me ensina que hoje, ainda que muito tenha sido incluído na minha biografia, mora em mim aquela pessoa. Ainda que em um cômodo pequeno da minha alma.

Até o ano que vem, então.



carladias.com




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terça-feira, 2 de julho de 2013

NÃO CONFIEM EM CHICO BUARQUE >> Clara Braga

Engraçado como todo início de semestre, seja ele início do ano ou não, parece ano novo! Atire a primeira pedra quem nunca começa o semestre cheio de energia, dizendo que dessa vez não vai deixar para ler os textos e fazer os trabalhos de última hora, que é para não ficar apertado no final do semestre. Igualzinho às promessas de ano novo que não duram até junho, e isso porque eu to sendo legal!

Esse semestre não foi diferente, comecei prometendo a mim mesma que eu seria o dobro mais responsável e não deixaria nada para última hora. Mas é incrível a quantidade de outras coisas mais interessantes que aparecem para serem feitas naquele tempo que estava reservado para ler o tal texto. E como o tal texto é só para a oooutra semana, porque não deixar para depois? E assim vai, fica para depois até ser o dia anterior a aula e você precisa ficar até de madrugada acordado lendo o tal texto. Ai você dorme pouco, fica cansado, mas não pode dormir cedo no dia seguinte para compensar a noite mal dormida, pois já tem outro texto que ficou para última hora e você precisa ler. E de noite mal dormida em noite mal dormida, surge o famoso cansaço acumulado! Maldito cansaço...

O problema desse cansaço é que ele te impede de fazer o melhor que você poderia fazer, você prefere fazer o mediano e dormir um pouco mais do que fazer de fato o seu melhor e acumular ainda mais cansaço. Até porque, daqui a pouco, para repor as noites mal dormidas você vai ter que dormir um semana inteira sem intervalo.

Eu infelizmente não conheci até hoje alguém que chegasse ao final de um semestre tranquilo, sem trabalhos acumulados. Se alguém conhecer, por favor, me apresente, preciso fazer um intensivo e entender como é essa vida de uma pessoa organizada. Nossa, tudo deve ser tão mais fácil, mais bonito, mais colorido! Essa pessoa deve ter até a pele mais macia, até porque consegue dormir 8 horas por noite! Ah, e também não tem olheiras, está sempre de bom humor, não tem stress, não passa mal de nervoso antes de apresentar um trabalho, até porque domina a matéria completamente, não tem gastrite e ainda consegue arrumar em sua agenda super organizada, momentos para se divertir com os amigos!

Tenho certeza que Chico Buarque diria que essa pessoa é uma bailarina, mas vai por mim, fui bailarina por sete anos e posso afirmar, Chico Buarque mentiu para todos nós!


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