SOBRE VÍBORAS E MANGUSTOS >> Zoraya Cesar
Família é família, parente é
parente, o resto é aderente.
O versinho não tem muito a ver, mas
eu gostei da rima.
Mas, sério, meu marido é minha família,
o resto é parente. E quando os italianos dizem que parente é serpente, eles
sabem o que estão falando.
Sabe aquele lance, você pode falar
mal, mas se alguém ataca sua família, você fica enfurecido? Pois é.
Mas vamos à história.
Casei nova, e não por boniteza, mas
porém por precisão.
Morava de aluguel, numa vaga com
outras três colegas que não paravam de falar e não queriam saber de estudar. Um
inferno. E o laboratório de patologia forense onde eu trabalhava pagava quase direitinho,
mas, vocês sabem, mulher tem despesas que até Lilith duvida. Eu não ganhava o
suficiente, portanto.
Algum tempo depois, comecei a
perceber as correntes ocultas da casa, aquelas por detrás das boas maneiras
iniciais que usamos para iludir os incautos. Correntes de alta tensão.
A oficina ia até razoavelmente bem,
mas o dinheiro não dava para nada. As brigas entre eles eram constantes e cada
vez mais acerbas, até chegarem perto das vias de fato. Eu ficava no quarto,
trêmula de medo, odeio violência.
A oficina pertencera ao patriarca
da família; logo, no entender da minha sogra e do meu cunhado, os lucros deveriam
ser divididos igualmente. Vasco alegava que quem trabalhava era ele. O irmão o
acusava de não deixar que ele participasse dos negócios. A mãe dizia abertamente
que Vasco usurpara a herança da família e a fazia passar necessidade em casa e
vergonha frente aos vizinhos.
A verdade verdadeira a gente nunca sabe, né? Mas, pelo pouco que pude apreender, Vasco realmente
passara a perna nos dois. E que todos odiavam o falecido. Não posso, claro, afirmar nada, mas a morte de meu sogro me pareceu bastante suspeita. Vejam se não concordam: quando ele estava debaixo de um carro, examinando o bloco do motor, do nada o elevador automotivo, ou coisa que o valha, falhou, fazendo com que o carro caísse sobre meu sogro, matando-o instantaneamente.E a família, que até então era unida em torno do ódio que sentiam do velho, passou a se digladiar por conta da maldita oficina.
Dizem que um raio não cai duas
vezes no mesmo lugar. Mas cai sim. Cai raio e, se duvidar, cai outra coisa
também. Como, por exemplo, um multiplicador de torque. Ao manuseá-lo, meu
marido deixou cair a ferramenta em cima da cabeça, fraturando o crânio e
provocando uma hemorragia cerebral que o levou à morte rapidinho, rapidinho,
ali mesmo no chão da oficina. Eu fiquei em estado de choque. Tão jovem e já tão
viúva. E sem nada, pois casáramos em separação total de bens, eu não tinha
direito a um tostão furado. Mas minha sogra e meu cunhado sim.
No entanto, todos tínhamos álibis
e, ademais, o mundo inteiro sabia que Vasco costumava trabalhar bêbado. Uma tragédia, portanto.
Inquérito arquivado, era chegada
hora de eu sair daquela casa e de minha sogra e cunhado meterem a mão na tão
ambicionada oficina.
A história acaba aqui? Hahahaha,
mas claro que não! Família é família.
Vasco era meu marido. Um péssimo
marido, um bebum desgraçado e sovina que me batia, pegava todo meu dinheiro
para sustentar aquela corja, me humilhava e me forçava ao sexo. Eu já estava
planejando minha fuga quando o acidente aconteceu.
Acidente é o escambau. Sei que foi
meu cunhado, em conluio com a cobra venenosa da minha sogra, que matou meu marido.
Mas eu é que não ia confrontá-los, ou me
matariam também. Fiz o jogo, me fiz de besta, permaneci segura.
Se os planos de fuga não dessem certo,
eu também já tinha um plano B na manga, comprei para Vasco uma passagem só de
ida para o 7º círculo infernal de Dante.
Mas uma coisa é eu matar minha
família, outra coisa é parente ousar meter a mão nela.
Por isso, tratei de envenenar minha
sogra com nicotina líquida. A idiota usava cigarro eletrônico, porque achava ‘chique’.
Foi fácil forjar que ela bebera por engano porque era semianalfabeta, não entendeu
direito as instruções. Meu cunhado, outro cachaceiro miserável, teve um destino
mais natural – tão bêbado estava que caiu no rio enquanto pescava, que horror.
Horror foi empurrá-lo pra dentro da água, o bicho era pesado. Os três mataram o
pai e marido depois se comeram em vida. Não ia permitir que usufruíssem de um
bem adquirido dessa maneira torpe. Danem-se todos. Mataram meu marido.
Agora que me formei, aumentaram meu
salário e eu me sustenta bem, como disse, não sou dada a luxos. Fui embora e
sacudi a poeira dos pés.
Ah, sogrinha! Ah, cunhadinho! Ah, maridinho!
Vocês eram verdadeiras víboras. Mas eu, eu sou um mangusto. Muito prazer.
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Tanto o mangusto africano quanto a
seriema brasileira se alimentam prazerosamente de cobras venenosas. Não sei por
que a protagonista se referiu a si mesma como mangusto. Eu é que não vou
perguntar.
Parenti Serpenti - Parente é serpente. Só o fato de ter sido dirigido por Mario Monicelli já vale ver

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