NO ENTREPOSTO >> ANDRÉ FERRER
— E aquela Beltrão?
— Peroba-rosa seu Jonas.
— Hum... — disse o que fazia perguntas e batia o cabo do chicote na bagagem, atrás dele, uma canastra amarrada no lombo do cavalo.
Jonas era da cidade e Beltrão tinha respeito por ele, atitude rara naquelas bandas. O negociante de madeira fora incumbido de acompanhar o guarda-livros até uma fazenda e Jonas estava surrado pela viagem, o seu orgulho por trabalhar para a empresa dos ingleses também. Sujo e cansado, pouco importava a gravação a ferro na sua caixa: Cia. de Terras Norte do Paraná.
Beltrão levantou o traseiro da cela e aconchegou-se como pode. Ainda se referindo à madeira, disse: — Pra onde vamos, tem muito.
— As que você pretende comprar?
— Também.

IMAGEM: Gemini
O ciciar das cigarras ficou intenso e a mata parecia mais densa naquele ponto. As copas das árvores, de ambos os lados, encontravam-se no alto e tampavam o Sol das onze horas.
Jonas levantou o braço e estapeou a própria nuca. Seu chapéu quase caiu.
— Merda.
— Que é?
— Um mosquito picou o meu pescoço.
— Isso é comum. Já falei pra você. Enquanto tiver aqui, precisa acostumar.
— Acostumar? Pois, eu não vejo a hora de voltar para São Paulo. O escritório me aguarda, minha mesa de carvalho, os passeios na República e os embarques, na Luz, para ver a minha namorada em Campinas.
— Certeza seu Jonas — disse Beltrão e emendou: — Olha rapaz! O empório fica depois dessa capoeira, depois da descida, depois da curva...
— Eu sei — retalhou Jonas. — Perto daqui. Logo se vê.
Dez minutos depois, Jonas e Beltrão amarraram os cavalos na frente do empório, ao lado de quatro outros animais. A porta do lugar estava fechada, mas havia movimento. Beltrão espiou pela janela e chamou Jonas, que abriu a porta e logo sentiu o cheiro da comida. Imediatamente, um dos homens, no balcão, olhou para eles e sorriu. Havia outros quatro encostados por lá e um deles vestia uma batina preta.
— Fiquem à vontade — disse o homem que sorrira, o dono daquele entreposto. Beltrão se aproximou de uma das mesas.
— Tem comida Tomás?
— Caldo de galinha.
— Muito bom.
Jonas puxou um banco e sentou-se. As pessoas no balcão espiavam e voltavam a conversar baixinho enquanto o guarda-livros ficava incomodado e alimentava a certeza de que os peões e o padre falavam deles. Atrás dos homens, Jonas avistou uma folhinha pregada na parede, um cartão amarelado de dois anos atrás: 1932.
— Uma piada Beltrão. Nunca viram gente como nós?
— Nunca viram gente como o senhor — Beltrão respondeu e riu.
O negociante de madeira sabia que os homens no balcão falavam de qualquer outra coisa menos deles porque conversavam baixo e cerimoniosamente com o padre.
— Sua ideia é errada seu Jonas. Nem estão aí pra nós. Falam de outra coisa. Deixa de ter ideia errada, assim ficamos longe de encrencas.
— Tudo bem, mas que parecem brutos demais, parecem.
— Ora, seu Jonas, essa ideia é errada. O senhor precisa aprender como as coisa são aqui.
— São ruins — disse Jonas. — Disso, eu já sei. Basta olhar para essa gente.
— O senhor precisa saber que o Heitor é pior que esses cabras ali, falo do fazendeiro, o homem que vai fazer negócio com o senhor, osso duro de roer. Fica sabendo logo de uma vez seu Jonas! É um sujeito difícil, que já matou meia dúzia, o senhor tem que respeitar, saber como as coisa são aqui.
Jonas balançou a cabeça e empertigou-se no banco, as mãos foram à cintura, levantaram-se por dois segundos. Beltrão fez um sinal rápido para que Jonas escondesse o revólver.
— Compreendi — fez o comprador de madeira enquanto olhava para os homens no balcão. — Se alguém vê isso pode ser perigoso. Você precisa aprender a vivê seu Jonas.
Sem perceberem o movimento de Jonas, os homens no balcão prosseguiram com a conversa. De onde o guarda-livros e Beltrão estavam, era impossível distinguir o cochicho.
Então, o dono do lugar começou a cruzar o salão e trazia a comida. Um dos homens olhou para ele e bateu uma das mãos no ombro do padre.
— Tomás, quando viu o meeiro pela última vez?
— Há dois dias. Comprou um litro de cachaça — fez Tomás estacado no centro do salão.
— Eu não disse? — disse o padre. — Estava sozinho e bêbado.
Os homens concordaram e o padre voltou a falar.
— Agora, preciso ir. Está na hora.
Então, Beltrão e Jonas olharam o padre sair e fechar a porta.
— Mas que diabos aconteceu? — o guarda-livros resmungou.
Naquele momento, o dono do empório chegou e trazia dois pratos fumegantes. Dentro de cada um dos pratos, havia um generoso pedaço da pão.
Assim que Tomás foi ter com os homens, Beltrão afundou o pão no caldo e comeu. Depois, tornou a ensopar o que restou e a expressão de Jonas voltou a ficar preocupada. Tinha um problema e queria se livrar dele.
— O homem é bruto — disse Beltrão.
— Eu ainda sou pior — Jonas respondeu.
Eles tomavam o caldo em silêncio, mas Beltrão sabia que o outro estava com o caso na cabeça, remoía os motivos e as consequências daquele trabalho.
— Preciso voltar logo — disse Jonas.
— Muito bem, vou colocar o senhor a par — Beltrão asseverou. — Eles me fizeram prometer que falava só quando nós tivesse perto de chegar. Ora, se o senhor aparecer na firma antes de eles chamar, mandam o senhor para o olho da rua.
Naquele momento, os homens disseram adeus a Tomás e saíram um a um. Apenas o que batera no ombro do padre acenou com a cabeça para Beltrão e Jonas.
Depois que saíram, o dono do empório se aproximou da mesa a fim de recolher os pratos.
— Parece que teve movimento nas redondezas — disse Beltrão.
O dono do lugar empilhou a louça em cima da mesa e puxou um banco. Fez uma expressão grave e, depois, esfregou o rosto com uma das mãos. O guardanapo que carregava foi para um dos ombros.
— Um homem desmaiou e morreu.
— É mesmo? — disse Jonas. — E como foi tudo?
— A mulher e o filho viajaram para Três Bocas, precisavam de fazendas de pano para roupas novas. Então, deixaram o sujeito sozinho no sítio.
— Ele desmaiou? — Beltrão incitou.
— Bem, o sujeito caiu no chiqueiro.
— Morreu assim? — fez Jonas. — Morreu de tanto beber? É isso?
— Não. Os porcos devoraram ele. Foi morto enquanto dormia na lama. Ficou todo esburacado, o pobre.
Jonas e Beltrão olharam um para o outro e, depois, para o dono do entreposto.
— Que história hein?
— Uma tragédia Tomás. Até fiquei com vontade de bebê um pouco daquela pinga. Tem aí?
— Sim Beltrão. Vou trazer. E o senhor?
— Não. Obrigado — disse Jonas.
Ele uniu as mãos enquanto Tomás voltava para o balcão e tornou a fazer aquela cara que o negociador de madeira já conhecia. O mesmo friso na testa, porém, Beltrão percebeu uma pequena variação, Jonas tinha um movimento diferente no canto dos lábios e, dessa vez, parecia ter concebido uma grande ideia.
— Terei sucesso no caso da fazenda e os chefes vão ficar impressionados Beltrão. E se eu voltar assim que resolver essa questão e conversar com eles em São Paulo?
— E ficar no escritório?
— Sim.
— Eu já disse: não faça isso.
— Por quê?
— Vão te mandá embora — fez Beltrão com gravidade. — A única maneira do senhor ficar na firma é trabalhando aqui. Não tem jeito.
— Você tem certeza?
— Eles disseram pra mim: ou você fica ou rua. Fique, meu amigo, pelo menos por alguns meses. Quem sabe, eles esquece?
Jonas colocou as mãos ao redor da cabeça. O dono do empório voltou.
— Aqui está Beltrão. É da boa.
— Mudei de ideia — Jonas atravessou. — Também quero.
Quando saíram do entreposto, só restavam os dois cavalos e não havia sinal dos homens, que deviam trabalhar nas redondezas. O Sol estava a pino, Jonas subiu no cavalo e assentou bem o chapéu na cabeça. Beltrão acenou para Tomás, que observava da janela.
Na estrada, eles avançaram e chegaram a uma capela. O capim já tinha escondido um dos lados da construção de madeira e, nos fundos, a mata escurecia o chão apesar da luminosidade da tarde.
Ao lado da capela, uma capoeira fora convertida em cemitério. Jonas e Beltrão tiraram os chapéus enquanto passavam na estrada lateral e abaixaram um pouco a cabeça. No local, havia uma cova recém-fechada e quatro pessoas, o padre, um homem que segurava uma pá, uma criança e uma mulher.
— Sim. É o home dos porco — disse Beltrão, que fez o sinal da cruz.
Jonas ficou quieto, o chapéu no peito. Só conseguia pensar na eternidade que passaria naquele sertão.


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