O VELHO E O SULTÃO >> Sergio Geia

 


Todos os dias eu o vejo. Velho, magro, a cara tomada de barba. Carrega uma bolsa na mão, às vezes no ombro. Não sei o que tem nela. Talvez alimentos. Blusa. Bugigangas. Uma vez vi que sacou uma garrafa d’água. Bebeu. Depois jogou a água na boca do vira-lata. 
 
Tem o costume de sentar-se no banco com o cachorro no colo. Fica ali. Acarinhando. Olhando o nada. Desconectado de tudo. Das pessoas que passam. Dos carros. Do mundo que pulsa. Mas outro dia vi que não era bem assim. O gorjeio de um bem-te-vi. Logo vi. O bem-te-vi. Ele procurava. Olhava as copas, os galhos. 
 
Às vezes, andando mesmo, ele colocava a bolsa no ombro e nos braços, o cão. O bicho pesado, bem-alimentado, um carregar com dificuldades. Há um amor diferente ali, quantas vezes eu pensei. 
 
Outro dia, puxei conversa. Estava com alguns jornais na mão, sentei ao seu lado, arrisquei um assunto. De repente, ele começou a falar sobre a Companhia Taubaté Industrial, uma antiga fábrica de tecidos, a primeira grande indústria de Taubaté. 
 
Disse que trabalhou em diversos setores da fábrica, na fiação, no alvejamento, e que viu de perto morins e cretones. “Sabes o que é um cretone?”, me perguntou. “Um tecido”, eu disse, meio inseguro. “Não qualquer tecido, meu jovem. Mas um tecido especial, feito de algodão, muito usado na fabricação de colchas e cortinas. Paul Creton. Um francês. Taí a origem da palavra”. 
 
Enquanto ele falava sobre tecidos, o cachorro, chamado Sultão, parecia prestar atenção. Já devia ter ouvido aquela história milhões de vezes. De vez em quando levantava as orelhas, mexia o rabo. 
 
“A principal diferença entre o morim e o cretone é a urdidura. O cretone tem urdidura de cânhamo. Já o morim, ah!, o morim, é uma bela de uma porcaria, um tecidinho. Sabes o que é uma chita?”. Ante o meu breve silêncio, ele não perdoou: “Pois se vê, meu jovem, que és um absoluto ignorante em matéria de tecidos”. Respondi: “Todos somos. Em assuntos diferentes, claro”. Ele ficou em silêncio, Sultão levantou as orelhas, um pequeno suspense. “Tens razão. Tens razão”. E continuou: “A chita é um tecido de algodão, de cores fortes, geralmente florais. Os europeus a trouxeram em 1800.”. 
 
Dei-lhe um exemplar do jornal. Ele olhou desconfiado a minha coluna. Depois colocou o jornal na bolsa, chamou o Sultão e pôs-se a andar, sem se despedir. 
 
 
P.S.: 1. Esta crônica foi publicada neste espaço em 07/02/2015 e faz parte do projeto “Crônica de um ontem”. 2. Ilustração: Pixabay.

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