cadeira azul >> whisner fraga

 


julgo que seja uma enfermeira, me pede para colocar os pertences na cadeira azul, enfática no termo "azul" e eu estou nervoso porque a médica me olha com aquela típica aptidão para a pressa, acabo errando e despejo tudo na verde, a mulher me corrige, é na azul!, mas eu não encontro nada dessa cor enquanto começo a suar mais do que o esperado, vou tirando a corrente, os pingentes, para ganhar tempo, a doutora esclarece que não é preciso, as máquinas hoje em dia não sofrem mais essa interferência de outros metais, educada me aponta o local onde esparramar meus pertences,

penso que a essa altura a pressão não deve estar nada boa, começamos mal, ela vai medir e perceber que a sistólica ou mesmo a diastólica estão acima do máximo recomendado, fico preocupado, pois ela pode me receitar algum medicamento de que não necessito e isso pode causar uma doença ou um efeito colateral e um exame de rotina pode virar uma patologia e eu vou ter de consultar outro médico para curar essa nova enfermidade e isso acaba virando uma bola de neve, e você pode argumentar: basta não tomar o remédio, uai, mas não sou assim, eu devia estar no exército, obedeço ordens como ninguém, se eu não obedecer ordens eu sou capaz de somatizar algo e retornamos ao mesmo lugar: uma doença,

a médica pede licença, faz as medições, a tela apita, o sensor apita, o condicionador de ar apita, a televisão ligada na sala de espera apita e esses apitos me deixam apreensivo, acho que não é bom uma clínica com tantos ruídos impertinentes, inesperados,

a doutora brinca com o meu nome, capricharam, hein?, é, pois é, acho que ela tenta me tranquilizar deixando o clima mais leve, mas logo assim, zombando do meu nome?, ok, vamos nessa, meu pai é um sujeito muito criativo, todos rimos, isso deve servir para deixar os átrios e os ventrículos relaxados, porque ela parece aprovar os números que piscam na tela, muito bem, muito bem, eu me vejo em uma câmara de tortura, falta me amarrar os pulsos, elas não riem mais,

tiram os aparelhos, me estendem uma toalha de papel, concluo que terminou, não pergunto quando os exames ficam prontos, depois ligo para saber, agradeço, pego as minhas tralhas, a cadeira tão azul que fere minha sensibilidade cromática, a cadeira azul, azul cadeira, cadeira azul está marcada com minha letra, começo a rir, em breve estou gargalhando, ninguém pode ouvir, mas estou gargalhando, cadeira azul, azul cadeira, tchau, até ano que vem.

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