NÃO ESCREVA CARTAS DE AMOR COM A AJUDA DO DICIONÁRIO >> Carla Dias
Seguiu amando desprovido do verniz intelectual das declarações de amor que acabam na lista das mais copiadas pelos que aceitaram, sem uma lasca de embaraço, a própria incapacidade de declarar autoria de resumo de afeto.
Tudo já foi escrito; "para que inventar se pode pegar emprestado?" — o irmão dizia, ao tentar consolar a pobreza vocabular dele.
Queria dizer, de um jeito que fosse dele, algo que resumisse a taquicardia que o acometia a cada amor quase experimentado. No desandar da possibilidade de ser correspondido, seu coração silenciava, como se tivesse partido dele.
O quase tem sido o termômetro de suas derrotas. A cada engasgar da voz — de fazer espectadores rirem dele — o quase deixa de ser poça e se transforma em mar. E ele se perde do mundo. Depois de horas tentando esquecer a vergonha de não saber dizer o que sente, atira-se em algum projeto no qual o sucesso é inevitável, sendo o mais frequente convencer o chefe a descartar alguns produtos da prateleira da loja de achados e perdidos, encalhados por falta de atrativo.
Sempre se dá bem nesse projeto. Cinco minutos depois da excitação do vencedor, o sorriso o abandona, o corpo volta para os braços da falta de energia, o vazio o convence de que a noite será longa.
Mas então aconteceu diferente, e o diferente, no departamento dos sentimentos, nem sempre é outra coisa, apenas sacode o adormecido. E por ser diferente, inspirou a sua devoção em dizê-lo, mesmo que escrito, certamente assinado. Dizer de escancarar, como costuma escancarar portas e janelas em dia de calor insuportável.
Olhou para ele ali, sobre a mesa da cozinha, resquício das horas de estudo do amigo com quem dividia a casa. Um bloco de folhas vazias de escrita, em um mundo no qual basta pedir a um buscador que busque o desejado, parando, vez ou outra, para conferir as redes sociais. Achou atraente, interessante. Lançou-se à aventura de, finalmente, escrever uma carta de amor ao amor que ainda não sabia que era o amor da vida dele.
Folheou aquelas páginas sem saber aonde as recém-conhecidas o levariam. Foram litros de café, dezenas de declarações de incompetência. Pensou em desistir. Eram tantas as palavras anotadas, seus significados se embaralhando em sua mente. No entanto, algo o movia, “talvez o excesso de café”, o irmão arriscou, enquanto o observava, espectador fascinado com a agonia do personagem.
Sete horas depois, após conhecer centenas de palavras, arrastou-se até o sofá, cutucou o irmão que dormia, e anunciou que tinha finalizado sua carta de amor. O outro arregalou os olhos, posicionou sua curiosidade e se preparou para escutar a leitura. Mas ele estava exausto; sua voz se negava a dar espaço para esse atrevimento. Então, entregou a folha de papel dobrada ao irmão, a carta pronta, fruto de horas de leitura de dicionário, e se deitou no sofá, olhos fechados, um certo alívio de companhia.
O irmão sorriu, curioso e satisfeito em ser o primeiro a ler. Estarreceu-se diante do escrito:
Amo.
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