MÚSICA É SAÚDE, VIZINHO! >> Albir José Inácio da Silva

 

Vitório acordou sem os malditos acordes. Há muitos anos não sabia o que era uma manhã de paz. Quase silêncio, um latido distante, passarinhos cantam na árvore que filtra os raios do sol na sua janela. Nada das malditas marteladas nas teclas do piano.  A bruxa bateu as botas – lembra-se, enchendo os pulmões de ar.

 

Antes gostava de música, cantarolava umas melodias e chegou a pensar em aprender violão. Seus problemas com a arte começaram no dia em que a vizinha chegou para o apartamento da frente. O piano não coube no elevador nem subiu as escadas, teve de ser içado pela janela, com a voz da dona gritando cuidados com o instrumento. Instrumento de tortura, ele descobriria em breve.

 

Após alguns dias, foi falar com a vizinha. Sorridente, conciliador, achando que tudo podia ser resolvido no diálogo, como aprendera na vida. Explicou questões pessoais, seus problemas com barulho, conselhos do psicólogo, inventou traumas. Queria sensibilizar, quem sabe virava amigo, trocava pedaços de bolo, sorrisos e outras vizinhices.

 

Ela estava a um metro de Vitório, mas o volume de voz era o mesmo que usou para ameaçar da janela os carregadores de piano na calçada.

 

- Ora, vizinho, música é saúde!  O senhor devia me agradecer! Um concerto desta qualidade e de graça!

 

Várias vezes por dia a velha martelava o teclado e isso doía na alma. Ela não sabia tocar o piano desafinado e ainda cismava de cantar. A voz conseguia ser pior que o piano. Vitório começou com chás e simpatias, foi ao psicólogo, passou para o psiquiatra. Agora tomava muitos remédios de tarja preta. Teve insônia, problemas digestivos, crise de nervos, uma alopecia que ninguém conseguiu tratar, e ficou careca. Enquanto isso, a velha continuava agredindo as teclas.

 

Escreveu muitas páginas no livro de ocorrências do condomínio, protestou nas assembléias, e ninguém se importou. Recorreu à justiça, mediram os decibéis, e o perito cochichou que a música era ruim, mas o barulho, suportável.

 

E assim foi a sua vida nos últimos anos. Chegou a pensar em suicídio, e até a fé ficou abalada porque era difícil acreditar num Deus que permitia tanto sofrimento a um cristão.  Tornou-se uma pessoa amarga, desejava mal à vizinha, pensou em recorrer à magia negra. Já vivia um inferno em vida, mas ela o faria perder também a alma. Por último, foi licenciado do trabalho por problemas de saúde e acabou demitido.

 

Tudo isso durou até ontem, quando, ainda sonolento da meia dúzia de comprimidos pra dormir, sentiu que havia algo diferente. Em mais de dez anos, todos os dias, inclusive domingos e feriados, o piano empestava suas manhãs. E hoje estava em silêncio.

 

Ainda grogue e de pijama, saiu para o corredor. A porta em frente aberta, pessoas entravam e saíam fazendo o sinal da cruz. Aproximou-se. Compreendeu. Conteve o grito.  A velha empacotou de madrugada. Voltou pra casa e ficou paralisado na janela, com taquicardia, como quem sai pelo portão de uma penitenciária depois de vinte anos.

 

Ela se foi – pensou – deve estar agora no inferno, ajudando Belzebu a torturar os padecentes com sua música. Vitório venceu!

 

Mas isso foi ontem. Hoje ele acordou feliz, reconfortado, depois de uma noite como já nem se lembrava mais. Hoje está em paz. Esqueceu de tomar os remédios, mas suas mãos não tremem. Acha que nunca mais vai precisar deles. Há muito tempo não se sentia assim. Quase silêncio, um latido distante, passarinhos cantam na árvore que filtra os raios de sol na sua janela.

 

De repente uma rajada. Parece metralhadora. Uma explosão! De novo! Ouve gritos, parecem ordens.

 

Do corredor, pela porta aberta, Vitório vê a figura num banquinho pequeno demais para ela, cabelo moicano grisalho, brincos de aço, tatuagens e piercings em profusão – sobrinho da velha, explicou depois o porteiro.

 

- Vai colocando por aí em qualquer lugar. Depois eu arrumo. Ou não arrumo! – gargalha o herdeiro, apesar do luto amarrado no braço.

 

Enquanto grita ordens aos carregadores, ataca repetidamente os pratos, gira as baquetas nas mãos, e os pés enlouquecem os pedais no repique dos tambores.


OBS: Este texto integra o Projeto Crônicas de Um Ontem e foi publicado originalmente em 27/06/22.

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