SINOS >> Sergio Geia
Estou num hotel na Frei Caneca. Noite maldormida. Ruídos vindo da Augusta, imagino. Música alta, falatório, gritaria. Demorei a dormir. Em certo momento, peguei o celular. Eram 2h15min. Agora, já deve ser dia, embora o quarto ainda esteja escuro.
Acordo cedo. No fim de semana, que poderia dormir mais, o relógio biológico sempre funciona. Umas 6h agora, calculo; tenho preguiça de esticar o braço e pegar o celular. Meu corpo pede mais cama, mas não tenho sono; ele vai aparecer no meio da tarde.
Então ouço. São badaladas de um sino, suaves, a igreja que fica em frente ao hotel chama os fiéis para a missa. Hoje é o dia dedicado ao Senhor.
Essa cena aconteceu há alguns anos.
No sábado passado, dormi na Adriana. No amanhecer de domingo, levantei cedo e fui tomar banho. De repente, um sino. Pensei, por um instante, na Igreja São José Operário; ou talvez viesse do Convento de Santa Clara. Eram badaladas quase cariciosas, que repousavam delicadamente sobre o ouvido. Deu até vontade de me vestir e ir à igreja — olha que faz mais de uma década que não assisto missa.
Confesso que senti uma inveja dos sineiros dessas igrejas. Ainda que seja toque de chamada, ritmado, vivo e contínuo, ele é suave e faz bem. Talvez seja o tipo de sino. Talvez a sensibilidade do sineiro.
Por aqui, moro ao lado do Santuário de Santa Teresinha, o sineiro deve ter mão pesada. Nas manhãs de domingo, há missas às 6h30min, 8h, 10h. Sua batida é pesada, grave, insistente. Ainda bem que acordo cedo.
Mas não posso reclamar. Lá atrás, quando eu ainda era coroinha dessa mesma igreja, eu me pendurava nas cordas como quem desafia o céu, fazia o sino cantar alto, sem dó nem piedade. Um pecado. Mas um pecado alegre, desses que fazem barulho e ecoam até hoje na memória sempre que ouço o sino bater.
Ilustração: Pixabay.



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