O QUE A MULHER DO POSTO DIZ DÓI MAIS DO QUE A BENZETACIL >> Carla Dias


Todos tinham medo da língua dela. Durante os vinte e pouco anos em que trabalhou no posto de saúde do bairro, ofendeu mais do que acolheu. Ainda assim, muitos a procuravam no atendimento, pois sabiam que a mulher jamais os pouparia da verdade. E as outras enfermeiras, e médicos, também, confiavam nela para colocar os pacientes mais complicados no lugar deles. Bastava um “tá falando sério?”

Dizer a verdade era fácil para ela, assim como se desculpar por ter entregado uma verdade provisória ou equivocada. Na verdade, as verdades dela nem sempre eram verdadeiras. Mas a voz grave, cadenciando as palavras com profundidade, fazia qualquer cético concordar com o que dizia.

Os Azedos, uma banda de estudantes do colégio, compôs um rock sobre ela. “O que a mulher do posto diz dói mais que a Benzetacil” se tornou hit nas festas locais, e até os pais deles cantarolavam a tal quando a encontravam na rua. 

A enfermeira cantava a música enquanto tomava banho. Era afinada, mas preferia a versão dela, um samba canção bem arrastado.

Depois de se aposentar, procurou, mas não encontrou o que a fizesse se sentir mais plena e viva do que dizer verdades a quem precisava ouvi-las (diagnóstico da própria). Aos poucos, foi murchando feito planta que não via água há um tempão. 

A banda conseguiu um contrato de publicidade e foi embora do bairro. Tornou-se a principal compositora de jingles para uma distribuidora de remédios. Os donos do lugar adoravam o show, especialmente quando o público, enlouquecido, cantava os nomes de seus produtos bem alto.

Um dia, cansada de se sentir cansada de sua história, e de nem sempre se levantar da cama, tomou um banho frio, penteou os cabelos, engoliu um comprimido de antidepressivo com um copo de chá de malva, passou protetor labial e perfume de rosas e foi para a varanda. Sentou-se e lá ficou a observar o movimento.

Aconteceu aos poucos. Paravam, puxavam conversa, e não demoravam a perguntar sobre o que deveriam fazer com seus problemas. A enfermeira sorria, seu dentro sambando em enredo de alegria, e então profetizava verdades. As pessoas voltavam para casa decididas a colocar em prática os conselhos dela, e mesmo a verdade da enfermeira mais bagunçarem do que arrumarem a realidade delas, sempre voltavam com alguma prenda.

Passou a atender, na varanda mesmo, sob olhar de curiosos sobre verdades alheias. Pessoas de outros bairros, cidades, estados e até países – contratou um tradutor para assessorá-la – apareciam para uma sessão de verdades sem filtro. Uma produtora de um famoso canal de televisão a convidou para participar de um reality show; ela respondeu que jamais sairia de sua varanda. 

O reality show aconteceu na rua dela. Resgataram a música d´Os Azedos para a abertura. A banda reconquistou o sucesso e fez uma turnê, apresentando-se em estádios lotados, com milhares de pessoas cantando suas músicas sobre remédios para depressão e emagrecimento. “A enfermeira tá magrinha” chegou ao primeiro lugar das paradas.

Nada como a verdade, não é? 

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