PRIMEIRO CONTO DO ANO (um pouco tardio, mas tá valendo) – A sorte que o ano novo traz >> Zoraya Cesar

 


2+0+2+6=10. 1+0=1. Um! O número 1! Será realmente um ano excelente para mim, pensou Lourilindo. E se juntar com o mês de meu aniversário e as letras do meu nome dá um de novo! Esse é meu ano.

Agora sim, sairia da pindaíba que já estava ameaçando roer seus magros ossos. E como pretendia fazer isso? Arranjando mulher, claro! Melhor investimento não existe.

Lourilindo (ô nome desinfeliz esse que minha santa mãezinha me deu, velha lazarenta! Nome de pobre!) era até razoável no sexo, para algumas, e compensava no resto: sabia cozinhar, fazer massagem, bajulador na medida certa. Gostava de tudo — cinema, jogos, fazer nada, televisão, pagode; um verdadeiro camaleão. Gostava de tudo, exceto trabalhar, o que também já seria exigir demais, né?

Ultimamente, a safra de mulheres dispostas a bancar um encostado, por mais lourilindo que fosse, andava bem fraca, devagar, quase parando, parou. Nunca fora amante do trabalho, fazia o mínimo necessário e estudar não era com ele. No entanto, a idade chega para todos. E agora ele queria se encostar definitivamente, antes que enfeiasse de vez.

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A noite de ano novo seria perfeita. Todos os astros estavam alinhados, o universo estava propício, e ele estava mais lourilindo que nunca. Em 2026 sua vida começaria a dar realmente certo.

 

Foi para a praia famosa dos ricos, levando uma garrafa de espumante chique e duas taças daquele plástico que parece vidro. Seu plano: conquistar uma mulher quase caindo de madura, com lacinho na cabeça, dinheiro na caixinha e ardor na bacurinha.

Andou, andou, andou até ficar com dó de si mesmo. E nada. Assistiu aos fogos brindando consigo mesmo. Tomou a garrafa quase toda, o que o deixou ainda mais confiante. Depois da virada do ano eu encontro meu tesouro.

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Ela parecia promissora, já meio bêbada, a maquiagem borrada, vestido de grife. Pagou um espetinho pra ela. Afinal, tinha que investir antes para conquistar depois. Mas descobriu que o vestido era da patroa. E ela não tinha um cafofo, dormia no serviço. Vetada.

A outra era mais nova, e aparentava ser daquelas com um conjugado no subúrbio. Aprovada. Dividiu o resto do espumante e pagou um cachorro-quente.

A conversa ia boa, risadas, as mãos se encostando. Ela ralava como assistente de caixa. Lourilindo já traçando estratégias para o encosto quando plaft! Uma mãozona pesada desaba na sua orelha. A dona da mão era imensa, cara de má, cheia de tatuagens que pareciam da máfia russa. Levantou Lourilindo do banco como quem levanta uma boneca.

- Tá fazendo o que com minha namorada, seu macho de aluguel?

A garota interveio, solta ele, amor, e Lourilindo foi largado no chão. Catou os cavacos e zuniu, nem esperou para ouvir as juras de amor trocadas entre as duas, sua orelha vermelha e inchada como um tomate maduro.

A coisa ia mal. As duas únicas mulheres que encontrara eram furada: uma ainda mais pobretona que ele; a outra não era chegada e ainda namorava uma jamanta de maus bofes. E fora com elas que gastara seu parco dinheirinho!

O espumante estava chocho e quente, mas ele não perdeu a fé. Esse era o ano da virada! Ademais, àquela hora tardia as mulheres mais carentes, que não tinham arranjado ninguém, continuavam a desfilar na praia já quase vazia, esperançosas, talvez, por um lourilindo em suas vidas.

E talvez esse lance de pensamento positivo e numerologia funcione mesmo, pois não é que a sorte começou a mudar?

Encontrou uma oferenda de sidra Cereser e uns comes, que foram devorados sofregamente. Largou o espumante velho e levou a sidra consigo. Iemanjá ia entender.

Mais sorte: ao ver um vidrinho de perfume em outra oferenda, também não hesitou – jogou no corpo todo, pra tirar aquela nhaca de suor e desespero.

Outra sorte! No chão, largado, perdido e agora achado, um anel grande e dourado. Botou no dedo mindinho, sempre achara muito chique e poderoso homem usar anel no dedo mindinho. Pronto! Agora sim, alimentado, perfumado e enfeitado, tudo de graça. Eu sabia que esse ia ser meu ano de sorte, pensou.

Mas Iemanjá não parou por aí. Veio a oferenda final. Uma sereia.

Uma sereia saradona, de sainha e topzinho, bolsinha pendurada no ombro, sandálias nas mãos. (que sandálias grandes, disse a chapeuzinho vermelho que habitava Lourilindo; mas ele não ouviu). Cabelos negros compridos e lisos, boca carnuda, peitão e um jeito de quem tava a fim de jogo.

Ela tinha casa própria no alto do morro, e vendia cosméticos Jekinaê. Aquele ia ser o seu ano da virada também, disse, estava matriculada para terminar os estudos, e economizava para conhecer Cachoeiras de Urubui.

Lourilindo quase babou. Xara, a sereia guerreira! Tudo o que procurava numa mulher. Esforçada, batalhadora, com vontade de ganhar dinheiro. Achou o nome dela meio estranho, mas à sereia oferecida não se olha o nome.

Conversaram por algumas poucas horas antes de a sereia guerreira convidá-lo para conhecer sua morada
e otras cositas más.  

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Lourilindo quase chorou ao ver o pequeno quarto e sala de sua futura namorada. Uma riqueza! Muito melhor que onde ele morava. Já se via ali, sentado no sofá-cama das Casas Sergipe, tomando cervejinha e vendo televisão. Ia ser o marido mais dedicado que Xara pudesse desejar. Ela ia pro trabalho e ele cuidaria da casa. Como se fosse sua.

Mas chega de conversês e cerca-lourenços. Vamos às vias de fato. Sexo.

E dessa vez Lourilindo chorou de verdade. Definitivamente, por aquilo ele não esperava. Xara também não esperou e mandou ver. Mas negócios são negócios e se ele queria largar o trabalho de vez e ser sustentado, esse era o preço a pagar. Um preço até pequeno, ou não muito grande, para dizer a verdade, conformou-se.

Tão conformado, aliás, que já pensava em se mudar, quando seus sonhos foram mortos por morte matada.

- Querido, você sabe, a vida é difícil. Você poderia contribuir com as contas desse mês?

Lourilindo engoliu em seco. Estava lascado. Ou apanharia da sereia, bem mais forte que ele, ou dos vizinhos, caso se recusasse a atender tão dengoso pedido. Conformou-se novamente. Entregou o que restava de seu dinheiro. Bem, entregara algo ainda mais valioso, que diferença fazia? E Xara, a sereia guerreira, feliz, disse para ele voltar quando quisesse.

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Lourilindo desceu. Desceu morro abaixo, esperança abaixo, desceu, desceu.

Uma sensação estranha e latejante às suas costas lhe dizia que aquele ano começara errado, bem errado, começara dando pra trás, por assim dizer.

De nada adiantou espumante chique, pagar espetinho e cachorro-quente, usar perfume, tomar sidra, usar o anel dourado... ele gemeu. Nunca mais iria usar um anel. Todas as suas expectativas para a noite de ano novo deram em desastre.

Andava lentamente, para não assar ainda mais a parte de seu corpo que tinha ficado, digamos, ‘magoada’. Andava e cogitava.

A seu ver, tinha dois caminhos: mudar de emprego e estudar. Ou frequentar uma academia – lugar perfeito para encontrar uma mulher remediada e carente que pudesse encaixá-lo no orçamento. Afinal ele era bonitão, fiel, bem servido, lourilindo.

Sorriu. Era um crente em si mesmo. Se daria bem em qualquer dos caminhos que escolhesse. E esse era o seu ano! A numerologia não mentia.

Decidiu. Primeira resolução de ano novo para mudar de vida: ia se matricular na tal academia. Mulher gosta de homem gostoso.

 

 Outros contos de final de ano. Todos tão edificantes e positivos quanto esse (hehehe)

 

 

 

 

 

Comentários

Marcio disse…
Acho que a pressa atrapalhou o planejamento do protagonista.
Ele tem até 31 de dezembro para fazer de seu 2026 um ano bom.
Não era necessário resolver a vida na virada de ano.
branco disse…
O bom humor é sempre uma bênção, e este conto, curto(?) e desastroso, é uma forma genial de demonstrar isso.

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