O JEITO CERTO DE PASSAR UM BOM CAFÉ >> Sergio Geia
Minha namorada adora café. Eu também. Por diversas razões.
Certa vez estava em São Paulo, Shopping Santa Cruz, esperava Chiara terminar o vestibular da Cásper. Bateu um sono. Senti dor até. O café me curou. Já estava pronto para pegar a estrada.
Meu aplicativo contador de calorias me diz que um caneco de café de 240 ml tem duas calorias, eu disse duas calorias. Dá pra se fartar com um balde de café sem medo de ser feliz.
Há bastante tempo meu café da manhã tem café puro, e isso não é nenhuma redundância. Há cafés por aí que não têm café.
No friozinho, um café com brigadeiro é uma ótima pedida no meio da tarde, ou mesmo uma xícara de café antes de iniciar a cena construída na memória e que precisa ir para o papel.
Café é ritual. Beber uma xícara antes de começar a escrever é inspirador. Caio bebia aos montes. Antes de escrever, durante e depois. Clarice. E foi Clarice quem me trouxe uma novidade: como passar um bom café.
Vou resumir a história. Clarice estava incomodada com os cafés que bebia, eram todos ruins. Impulsiva que só ela, telefonou para o Instituto Brasileiro do Café, para reclamar. Atendida por uma senhora de nome Maria Helena Unzer, foi perguntada pela dita senhora se sabia passar um café. A resposta de Clarice: como todo mundo. De modo que o Instituto enviou para a sua casa um especialista em café (outros tempos), ele dava aulas em feiras e conferências internacionais, já tinha passado café para o rei da Suécia, para diversos presidentes e grandes personalidades. Pois seu Zé, o General, lhe ensinou como passar um bom café. Nas palavras da própria Clarice:
Para um litro de água, quatro colheres das de sopa bem cheias de café. (...) Enquanto a água para o café ferve, derrama-se água fervendo no coador e nas xícaras. Quando a água para o café estiver fervendo, joguem-se nela as colheres de café, mexendo sempre sem deixar ferver muito: uma só fervura. Joga-se fora á água que esquenta o coador e as xícaras, derrama-se o café no coador, e do coador nas xícaras. Então bebe-se: e eis renascido o estímulo para viver, para sentir, para pensar, para calcular, para repousar, para gostar de fazer exatamente o que se está fazendo — bebendo um café bem-feito.
Mais de 50 anos depois do início de minha existência, parece que descobri o jeito certo de passar um bom café. Será?



Comentários