FERIADO >> JANDER MINESSO

 

Era o final do feriado prolongado para muita gente. Para mim, era uma noite chuvosa dentro do carro, preso num engarrafamento depois de treze horas de gravação. Trabalhar no ramo do audiovisual significa, entre outras coisas, abrir mão dos feriados. É uma tradição.

Já vinha de dois dias resolvendo em tempo recorde coisas que não alguém não conseguiu resolver em tempo hábil. Esse caldo de arrogância e frustração só serve para atacar a gastrite da gente. Abri mão de encontrar amigos, de sair com a minha companheira e até de fazer supermercado para dar conta do serviço. Escrever, mandar para aprovação, reescrever. Mudar “só mais uma coisinha aqui, ó”. Foi assim por toda a sexta e todo o sábado. Um último pedido chegou às nove e quarenta e cinco da noite, bem na primeira garfada num pedaço de pizza marguerita.

O domingo não foi melhor. O despertador tocou às seis e cinco. Depois, quarenta quilômetros. No meio do caminho, uma massa de ar quente encontrou uma massa de ar frio e o mundo veio abaixo. Poças se formavam em alguns trechos da estrada, obrigando todo mundo a reduzir a velocidade. Demorou, mas cheguei. Às nove da manhã, estava revisando o material aprovado dezesseis vezes no dia anterior, porque algumas coisas precisavam “de uma melhoradinha aqui, ó”.

Tudo pronto, passamos o texto e começamos a gravar. A primeira parte foi tranquila. Complicou, mesmo, depois que anoiteceu. As pessoas diante das câmeras começaram a discorrer sobre a higiene íntima umas das outras, em termos pouco lisonjeiros. E nós lá, registrando tudo. Se a gente grava, é porque alguém assiste. Foram horas debatendo apropriação cultural, queda de cabelo e o número exato de parceiros sexuais que uma mulher pode ter sem ofender a moral e os bons costumes. Os assuntos se alternavam em ciclos de mais ou menos meia hora, enquanto a chuva parava, voltava e parava outra vez. Quando faltavam quinze minutos para segunda-feira, eles cansaram de discutir e nós fomos embora.

Dei carona para um amigo, porque o temporal estava mais forte do que nunca. A estrada era uma grande lanterna vermelha. Algumas SUVs balançavam, mesmo paradas, os Enzos e Valentinas pulando nos bancos de trás, entediados pelo trânsito da volta do feriado. Bem depois do tempo previsto, desviei cem metros para deixar o amigo num lugar seco. O retorno até a estrada levou dez minutos. Coloquei a Beth Gibbons para cantar. A melancolia acalma.

Chegando no Butantã, a coisa parecia um pouco melhor. O Waze me jurava que o melhor caminho era pela Nove de Julho e eu acreditei. Engarrafou tudo de novo e foi aqui que essa história começou: o feriado que nunca existiu, a chuva, o trânsito. Respirei fundo quando a Beth cantou “it's such a lovely day to have to always feel this way”. Previsão de vinte e quatro minutos para chegar em casa, mas o Waze me dava uma alternativa: entrar à direita e seguir por uma rua estreita até a próxima paralela, cortando por dentro do bairro. Obedeci.

O Waze deve ter dado a mesma dica para um taxista, que veio logo atrás. Só notei o caminhão atravessado no meio da viela quando era tarde demais. O motorista, ensopado no meio da rua, acionava o mecanismo para suspender uma daquelas caçambas de entulho, que se recusava a subir. Parei a um carro de distância. O taxista encostou logo atrás. Pelo retrovisor, o vi dar de ombros. Encarei o motorista do caminhão, que suplicou empatia com um sorriso amarelo.

– É meu primeiro dia com esse caminhão.

Não respondi. Depois de seis tentativas (contei), ele conseguiu suspender a caçamba e colocá-la na traseira do caminhão. Voltou correndo para a cabine e se apressou em tirar aquele trambolho do meio do caminho. Previsão de vinte e sete minutos para chegar em casa. O caminhoneiro deu duas buzinadas curtinhas para agradecer. Abaixei o vidro, estiquei o dedo do meio e mandei ele tomar no cu até minha garganta raspar. Depois, segui meu caminho. Se alguém esperava uma conclusão edificante, sinto muito.

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Imagem: Alyssia por Pixabay

Comentários

Anônimo disse…
Cada dia que passa eu me vejo mais parecido com esse autor… e o inverso também é verdadeiro.

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