CONTOS, CRÔNICAS, O BRAGA E A DENGUE >> Sergio Geia

 


Tenho dessas coisas. Precisava escrever crônica e estava sem vontade. Se meu trabalho literário fosse só escrever crônica, seria fácil, não estaria aqui dizendo pra você que eu precisava escrever crônica: ela já estaria escrita. Não só ela como suas irmãs, primas, e eu teria uma família de crônicas à minha disposição. 
 
Mas ando escrevendo contos e todo o tempo que tenho para a literatura vem sendo ocupado por eles. Ocorre que publico crônicas a cada quinze dias aqui no Crônica, e sem crônicas pra publicar, como faço? Pois neste sábado (o da semana passada eu quero dizer, afinal, você me lê hoje), pretendia deixar de lado meu conto da vez, e escrever crônica. 
 
Então, depois de tantos volteios, retorno ao início pra dizer que tenho dessas coisas. Na falta do que dizer, do que falar, pego um livro do Braga, escolho um cantinho e me divirto, torcendo pra que ele me dê inspiração. Às vezes dá; outras, nem o Braga resolve. 
 
Amanheceu o sábado, saí pra caminhar, depois passei na farmácia, precisava de remédio pra pressão e repelente. Não é que não se acham mais repelentes em farmácias? Comprovei depois, apelando para o iFood. Desgostoso, apelei ainda mais, e consegui umas unidades no Mercado Livre, marca que não conheço, mas que promete manter os mosquitos longe, incluindo o Aedes, esse risquinho de bicho que causa tanto estrago. 
 
Por fim, sentei-me no sofá, 9h, o 200 crônicas escolhidas em mãos. Eu já a conhecia, mas fui direto nela, a crônica Visita de uma senhora do bairro. Conhece? Dentre tantas passagens espirituosas, trago esta de presente pra você: 
 
Um casal tinha almoçado comigo e saíra. Fiquei sozinho em casa, pensando numas coisas que tinham dito sobre aquele casal, imaginando o que seria verdade, o que seria exagero. Era hora de fazer crônica, mas eu estava sem vontade nenhuma de escrever. Foi então que bateram à porta e eu abri. Posso entrar? Claro. Você não me conhece não, ela disse. Morava no bairro, já tinha me visto uma vez na praia e era casada. Vivo muito bem com meu marido, mas se ele soubesse que eu vim aqui ficaria furioso, você não acha? Claro. Perguntou se eu só sabia dizer “claro”. Bem que lhe haviam dito que eu às vezes sou inteligente escrevendo, mas falando sou muito burro. Para irritá-la, concordei: claro. 
 
Ah, o Braga... Quer um momento de pura diversão com algo tão simples e cotidiano? Leia Rubem Braga, leia Visita de uma senhora do bairro, depois me conte. 
 
No fim da leitura o celular apitou. Era o Mercado Livre me oferecendo outros produtos que talvez fossem de meu interesse. Espiei: um aparelho que afasta ratos e morcegos, quase duzentos; um outro sonoro que afasta pombo, quase trezentos; uma geringonça que promete capturar e eliminar mosquitos, quatrocentos reais. Desliguei. 
 
Eu precisava escrever crônica e estava sem inspiração. Me socorri do Braga. Até sonhei com uma visita de uma senhora do bairro, mas ela não veio. Tudo bem. Peguei o liquidificador e joguei lá o que tinha — as sobras de meus lampejos literários: duzentos gramas de crônica, cem gramas de conto, meio quilo do Braga, um fio de dengue, respirei fundo, que Rodrigo Hilbert me ajudasse, sentei-me à mesa e comecei a escrever, rezando pra que desse liga. 
 
 
Ilustração: Pixabay

Comentários

Jander Minesso disse…
Me ganhou no primeiro parágrafo e dali para a frente só melhorou. Uma aula de desespero literário.
Ana Raja disse…
Bela crônica, Sérgio!
sergio geia disse…
Grato, Jander e Ana.
Ana Savolet disse…
As crônicas são assim, até as melhores(muitas vezes principalmente estas), surgem da inspiração ou falta dela. Elas simplesmente surgem e são divinas. Eu amo ! Parabéns meu caro Geia! Ótima crônica. Grande abraço!
Soraya Jordão disse…
Adorei a ideia da crônica como um trabalho. Ajuda a desconstruir essa falácia de inspiração e dom.
sergio geia disse…
Grato, Ana e Soraya.
Ahe me reconheci muito nesta situação! Adorei o texto e dei muita risada com o Braga!!
Zoraya Cesar disse…
Como eu sempre disse, e a humildade me impele a repetir, como eu sempre disse, desde a primeira vez q li o Geia, eis um digno discípulo do mestre Rubem Braga, Geia, o poeta prosador das pequeninas coisas.
Albir disse…
É bom a gente saber que tem Braga e Geia como companheiros na síndrome da página em branco.

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