CUNHA >> Sergio Geia
Não sou ateu, tampouco agnóstico. Tenho um passado dentro da igreja. Fui coroinha, catequista, toquei violão em missa, coordenei grupo de jovens. Ainda assim, com todo esse passado beato, faz tempo que não piso numa igreja.
Esse pensamento insinuou-se de repente, como um clarão, assim que avencei pelo interior da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, após o encerramento de uma missa. Sinto uma paz, quieta, calma, me tomando o espírito. Muito pela energia do lugar. Mas, talvez, também pela energia daqueles dias em Cunha.
Esta crônica, portanto, é um retrato (dizem que crônica é o retrato do cotidiano transformado em arte), e talvez agrade mais a mim do que a você. O primeiro retrato de outros tantos que virão sobre Cunha (quem sabe), e que vai para o meu álbum de fotos no Instagram (já percebeu que ele pode servir para esse fim?), que vai para o baú de fotos da sala da Adriana, de dias suaves que pedem uma fotografia, ou uma crônica.
Diz a história que por volta de 1730, uma família, a portuguesa Falcão, que seguia em direção ao sertão, resolveu morar a poucos quilômetros da Boa Vista. Frei Manoel, que acompanhava a família, trouxe consigo uma imagem de Nossa Senhora da Conceição. Segundo relatos, por três vezes a imagem desapareceu misteriosamente da casa da família Falcão e reapareceu no alto de um morro, um milagre que levou à construção da igreja matriz de Cunha. Ao entrar pela porta principal, à esquerda, você irá encontrar essa imagem primitiva de Nossa Senhora da Conceição.
A igreja é bonita, com um acervo de retábulos, esculturas douradas e policromadas, adereços e componentes litúrgicos. A arquitetura é simples; internamente, seu revestimento artístico pode ser considerado barroco (com elementos do joanino e do rococó).
O que mais me impressiona, no entanto, não são suas formas, mas sua gente, as pessoas, a igreja viva. Vejo um coroinha trazendo um pedaço de pão, presente do padre, acolhido com abraços pela família. Uma mulher sorridente que recolhe os folhetos da missa espalhados pelos bancos. Homens e mulheres conversando com animação, estampando nos rostos uma alegria religiosa. Há algo misterioso ali, penso, algo sutil, um calor suave que faz bem. Decerto a fé vigorosa encontre melhor morada nos pequenos povoados.
Lá fora, o domingo caminha, ar fresco, tem sol. Ficamos sentados na praça, entregues a uma espécie de ócio. Mais tarde, o almoço será no italiano Il Pumo. Mas o que nos alimenta mesmo é a leveza que irradia dos rostos honestos do povo cunhense, que recebemos como força inspiradora para seguir.
Por algum tempo esquecemos as dores do corpo e da alma, as preocupações de sempre, os perrengues das lutas diárias, pelo menos até que surjam os primeiros raios de sol de uma segunda-feira, e a vida, paciente, comece outra vez.
P.S.: 1. Ao conhecer uma cidade, muitos viram fotógrafos de suas andanças. Eu também. Meu retrato é a crônica. 2. A parte histórica da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição de Cunha, bem como as características de seu revestimento artístico citados, constam de um documento que você irá encontrar na porta da igreja. 3. Mudando de assunto. Próxima quinta-feira. 07/05. Das 18h às 21h. Mais um dia de alegrias. E temores. Temores por aguardar os leitores e pensar, vão aparecer? Alegria porque sempre aparecem, o carinho é enorme (espero que continue assim). Meu novo livro. Romance. Sobre futebol. A magia. Mas não só futebol. Sobre a vida. Com suas dores e alegrias. Espero você. Livraria Letra Selvagem. Dentro da Rodoviária Nova, em Taubaté. Depois conto como foi. 4. Ilustração: criada por inteligência artificial (ChatGPT).




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