MARGÔ E ZICA - final >> Albir José Inácio da Silva

 

(Continuação de 20/04/2026)

 

A vizinhança acordou com os gritos. Na sala, a esposa em choque e o marido debruçado sobre a mesa. Um copo vazio e um frasco, ainda com alguns grânulos, em que garranchos no rótulo improvisado indicavam “Xumbinho”.

 

Margô nunca conseguiu convencer o marido a se mudar daquele bairro porque ele não quis sair de perto das suas padarias e supermercados. Apesar do preconceito e do desprezo que ela sentia por aquela gente, foram eles que a socorreram naquele momento de aflição.

 

Quando conseguiu falar, ela explicou que deu falta do marido na cama e, ao chegar na sala, ele estava morto. É verdade que a saúde tinha piorado, ele andava deprimido com as idas e vindas ao hospital, mas sempre foi um homem forte. Ela não esperava que ele fizesse isso.

 

Não havia suspeitas, só tristeza e consternação, mas era suicídio e a polícia foi chamada. O delegado veio pessoalmente porque se tratava de um dos mais importantes empresários da cidade. Consolou a viúva, fez discurso de exaltação do morto e prometeu que o IML devolveria rapidamente o corpo para as homenagens do velório.

 

Inconsolável, Margô suspira e chora:

 

- Minha vida acabou, ele era tudo para mim!

 

Suicídio de rico vira manchete e o jornalista chegou apontando sua máquina fotográfica. Margô se desesperou, não queria fotos, e o delegado ameaçou apreender o equipamento. Para poupar a viúva, ele mesmo deu explicações sobre o caso, a doença e a depressão, que resultaram naquela perda irreparável para a nossa sociedade!

 

A autoridade tratou de levar a imprensa e outros penetras e fofoqueiros até o portão para garantir que não haveria mais perturbações ao luto e à contrição de Dona Margô.

 

***


Zica era já simplificação do seu apelido de infância: Ziquizira. Cresceu meio abandonado, meio cuidado e meio esculhambado pela comunidade. Aprendeu a roubar cordões, carteiras e bicicletas dos desavisados no asfalto.

 

O “movimento” foi informado de que os “ganhos” de Zica poderiam atrair a polícia. Quase o moleque foi despachado.  Mas, por suas habilidades de ciclista, mesmo que nunca tenha comprado uma bicicleta, acabou contratado para o serviço de delivery. Entregava quase sempre orégano e às vezes talco.

 

Os clientes do delivery eram mais tranquilos que os da punga. Os patrões, entretanto, muito mais rigorosos.

 

E Zica ia levando a vida assim, com um crime aqui e um pecado ali,  até que encontrou a salvação pela boca da pastora Dalileia. Passou por uma sessão de descarrego e confessou pecados só confessáveis porque sob sigilo sacerdotal.

 

Mas não poderia manter aquele emprego. Não ficava bem para um varão de Deus nem para a pastora, apesar das generosas contribuições. Claro que ninguém pode abandonar o “movimento”, e foi por interferência da pastora Dalileia que Zica escapou mais uma vez do micro-ondas.

 

Zica chegou na igreja comemorando o novo trabalho - autônomo, sem patrão e sem perseguição da polícia. Quando disse o que ia vender, a pastora não comemorou tanto assim, mas disse que era melhor que o anterior.

 

Que ele se lembrasse, a principal qualidade de um comerciante era a honestidade. Deus abençoa a quem trabalha, mas só os honestos. Essa questão era a mais séria para a pastora porque incluía o dízimo, “quem sonega o dízimo está roubando a Deus!”, dizia.

 

E lá foi o Zica com o seu caixote sobre o qual expunha sua mercadoria: chumbinho. E passava o dia entre cânticos de louvor e conversas animadas com os fregueses. Mas à noite foi para casa preocupado. E não conseguiu dormir.

 

Cheia de pressa, a cliente tinha se afastado sem esperar pelo troco. Ela devia estar pensando que foi roubada. Já pensou se Jesus volta antes de ele devolver o dinheiro? Já pensou, ele no inferno por causa de trinta moedas de prata? Como Judas Iscariotes?

 

Por isso acordou cedo e desceu correndo de bike as vielas da comunidade até chegar à mansão. Precisava devolver o que não era dele.

 

***

 

O delegado, já agora protetor e amigo da família, empurrou delicadamente a imprensa e demais fofoqueiros e curiosos até o portão, para que a viúva pudesse chorar em paz a sua tragédia.

 

A bicicleta de Zica parou em frente e ele apoiou o pé no portão.

 

- Oh, madame! – gritou.

 

- A Senhora Margô não pode atender agora não. O que você quer? – disse o delegado de cara feia.

 

Mas Zica viu Margô na porta da casa, estendeu a mão fechada sobre a grade do portão, e gritou novamente:

 

- Madame! Aqui estão seus trinta reais. Ontem a senhora me deu cinquenta, mas o chumbinho só custa vinte!  

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