SOFISTICADO >> JANDER MINESSO


Voltando do trabalho, passei por um terreno onde estão levantando mais um daqueles prédios com apartamentos de vinte metros quadrados. Uma placa no local me chamou a atenção: “More com sofisticação a poucos metros da Avenida Paulista.”

Achei a frase esquisita porque entendo sofisticado como sinônimo de complexo e a vida já anda bem complicada sem que a gente tenha que procurar mais imbróglios. Não sei se o Brasil vai passar da primeira fase na Copa do Mundo; não sei se o escândalo do Banco Master é de esquerda ou de direita; não sei nem se estamos ou não em uma guerra mundial. Hoje, o mero fato de existir é um exercício de rebuscamento. Fazer isso em um espaço de quatro por cinco metros, então, parece intrincado demais.

Uma fome abrupta interrompeu tal elucubração. Por isso, encostei na padaria e pedi um pão na chapa, dois ovos mexidos e um suco de laranja. De bucho cheio, voltei a pensar naquela sofisticação toda e decidi buscar o sentido da palavra no dicionário.

Paguei a conta e segui para casa. Chegando, fui buscar um empoeirado pai dos burros no fundo da estante. Folheia daqui, folheia dali, encontrei a dita palavra. Substantivo feminino: elegância, alta tecnologia, complexidade (eu sabia!), refinamento… uma enxurrada de significados. Mas a grande revelação ainda estava adiante. Pensava no verbo morar e nos vinte metros quadrados reunidos na mesma placa. Pensava ainda nas leis de habitação de interesse social da cidade e nesses Airbnbs da vida. De repente, lá no final do verbete, quase chegando em Sofístico, encontrei: “Ato ou efeito de fraudar, enganar.” Aí, a sofisticação fez sentido.

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Imagem criada com o Nano Banana 2 (pois é; sucumbi).

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