CARTA << KIU OLIVEIRA


 

Mãe,

Encontrei um jeito de tirar da cabeça as palavras que perturbam. Dá até para afugentar a agonia do peito. Aprendi a escrever. Aqui vem professora toda quarta, ela traz livros com histórias parecidas com a vida da gente. Ler tem sido saída, passaporte. Conheci novos lugares, pessoas, artes, amores. Hoje em dia eu seria motivo de orgulho aí do lado de fora, né, mãe? O problema aqui são essas grades e paredes escondendo a nossa existência. Aqui não somos. Mas eu mereço não ser, o que fiz não tem nome, não cabe em palavra. 

As vezes em que a senhora esteve aqui, eu quis recebê-la, mas não consegui. A tal vergonha na cara, que a senhora tanto cobrava, finalmente apareceu. O problema é que ela veio tarde, e isso me deixa ainda pior. 

Quem troca o gás de cozinha pra senhora? E faz as compras na padaria, no mercadinho? Perdeu a vergonha de buscar os ossos no açougue, mãe? E quem pica a mortadela e espreme o limão com o devido cuidado para não escorrer o sumo junto? Isso eu fazia bem, né? 

Aqui não é o inferno que pintam. A falta do que fazer deixa tempo de sobra para pensar, o que muitas vezes é bom, evita coisa ruim, mas em outras, nem tanto. Penso todos os dias naquela noite, mãe. Já se passaram quantos anos? Muitos, né? Aqui também vem um pastor toda sexta, fala palavras bonitas, toca seu violão e canta músicas tristes. Ele fala em perdão todas as vezes, mal sabe ele com quem está falando. Deus não me absolverá, não há perdão para o que fiz.

Ontem terminei de ler um livro e me lembrei da senhora, em como deve ser difícil cuidar do Zequinha e da Alicinha. Como estão? Enormes, né? Eles vão pra escola? Nas palavras o caminho é mais seguro. Carolina Maria de Jesus, já ouviu falar? Vi a senhora na história dela. 

Mãe, como foi o enterro? Como conseguiu suportar? Sempre penso no que devem ter perguntado, em como olharam pra senhora; todos aqueles olhares de pena e fingimento. 

Meu colega disse que a senhora vem toda semana, cumpre o tempo de visita e pergunta pra ele como estou, se estou dormindo, respeitando, me cuidando. Não tem necessidade de a senhora passar pela humilhação da revista de novo, darei notícias por carta. 

Eu durmo bem, mãe. Tem noite que ouço a senhora gritar. Mas geralmente caio no sono cedo e me transformo em pedra. Quando amanhece, o colega vem reclamar dos roncos. 

A senhora me entende por não conseguir encará-la, né? Tenho saudade da senhora, tão bonita. 

O que fiz... A polícia teria resolvido se eu tivesse denunciado? Me pergunto todos os dias. A senhora prestou queixa mesmo, como jurou fazer? Porque os gritos seguiram acontecendo, até a noite em que eu perdi a cabeça, arrombei a porta do quarto e vi ele batendo na senhora. Aquilo não era o meu pai, era o diabo. Cego de ódio, notei tarde a merda que fiz. Fui diabo também. 

Mãe, me escreve. Quero ler a senhora. 

Cadeia de São Pedro, 25 de dezembro de 1997. 

Ítalo Caio

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