ARQUITETURA DA VONTADE >> JANDER MINESSO
Tudo isso aconteceu numa andança pelo bairro, num espaço de mais ou menos três quadras.
O primeiro caso foi numa esquina onde sobreviviam alguns casarões da época dos barões do café, agora escritórios e consultórios da Beneficência Portuguesa. Semanas antes, já tinham arrancado as janelas, dando a impressão de uma reforma. Naquele dia decidiram derrubar tudo. Pessoas em uniformes cinza levavam carrinhos de entulho até as caçambas; marretas marcavam o ritmo da demolição; e uma carregadeira pequena demais para ser levada a sério zanzava para lá e para cá. Encostados numa BMW 320i azul, dois caras observavam a cena e, vez por outra, davam algum comando para as pessoas uniformizadas. Um deles usava uma camiseta escura com um desenho do Coliseu e a palavra Italia em verde, branco e vermelho.
Duzentos metros depois, um caminhão enorme carregava uma escavadeira Caterpillar tão grande quanto para dentro de um canteiro de obras. A manobra era lenta e delicada, parando o trânsito e regendo uma sinfonia arrítmica de buzinas atrás daquela dança desengonçada. Uma placa na entrada do terreno prometia uma experiência exclusiva e luxuosa no coração de São Paulo, com duas torres monumentais de quarenta andares e quatro apartamentos de duzentos e trinta e um metros quadrados em cada pavimento. O luxo exclusivo de trezentas e vinte famílias dependia daquela manobra delicada.
Nem cinquenta passos adiante, uma ruiva de meia-idade trajando um conjunto social de linho insistia em bater numa dessas portas corrediças de comércio. A porta, estreita e enferrujada, estava erguida pouco menos de um palmo e vomitava uma espuma de sabão rala para a rua. A ruiva ajeitou o Tom Ford no rosto e voltou a golpear a portinhola.
– Dona Marli, a senhora tem que me atender. Não adianta fingir que não tá aí, Dona Marli. Eu tô vendo a água, a porta tá aberta. Já são três meses sem pagar.
A ruiva disse isso, respirou fundo e bateu de novo. Ninguém respondeu. Lá atrás, o caminhão que levava a escavadeira nas costas deu um ronco alto e começou a soltar uma fumaça grossa.
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Imagem: (Joenomias) Menno de Jong por Pixabay



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