COMO APRENDI A ESCUTAR >> Ionio Paschoalin
Isso
aconteceu há tanto tempo que nem sei se foi nessa vida ou em alguma outra forma
de existência. Sei que nunca esqueci o cheiro que a escuridão exalava naquele
momento. Havia o perfume das damas da noite, das seivas e do rio. O que estou prestes
a contar é realidade coberta pelo delírio que essa nostalgia me desperta quando penso nisso.
Julgava
que os seres que ouviam os sons da mata, os distinguiam de forma muito natural,
como qualquer hábito que se desenvolve por necessidade de sobrevivência.
Acontece uma primeira vez e se repete todas as outras, até que os sentidos se
apurem e o ato se realize mecanicamente, sem planejamento ou disciplina.
Nasci
antes dos outros. Fui criado por uma mãe loba e meus irmãos menores também eram
lobos. Mas não me delegava obrigações de primogênito, como ensiná-los a caçar ou defendê-los de ameaças;
gostava, ela mesma, de realizar essas e outras tarefas; nunca confiou em quem quer que fosse e além do mais,
sentia-se bem nessa posição. Era tão misericordiosa quanto inquisitiva. Sua
vida não foi fácil em nenhum momento, antes ou depois de eu ter nascido.
Recomendava uma separação que fosse distância entre nós e tudo que pudesse se
mexer, animado por almas ou pelos ventos, assim poderíamos bater em retirada,
fazer amizade ou atacar para matar.
Um
dia, esperou que os outros filhotes dormissem, com as línguas impregnadas de carmim
e gosto de ferro; tudo que é vermelho é amor e sangue.
Eu
não me sentia à vontade com tanto pelo me cobrindo o corpo, com as unhas e
dentes de lâmina. Achava-me propenso a
ser outra coisa, de pertencer a outro lugar; um que fosse diferente daquele. Ela
sabia disso, porque assistia meus pensamentos e me lançou um olhar de
reprovação: então não somos todos predadores? Não somos os que devoram o corpo
dos animais e das plantas?
Aprendemos
bem cedo a tomar, das águas, a sede; do mar, o sal e os seres; dos mamíferos,
fluídos lácteos, suas carnes e ossos; dos céus, as histórias e os voos; da luz,
a perda da inocência; da vida, a beleza; das paixões, a liberdade; dos outros,
você mesmo; da terra, as terras.
Devemos,
sobretudo, respeitar e honrar as trevas nas quais fizemos morada; elas hão de
nos proteger sempre. Olhos só podem enxergar ilusões que, com o tempo, crescem
e se deformam, acabam se transformando em mentiras.
Os
cheiros, tragados e comidos pelos teu nariz e boca, também vão te enganar e,
neles, não se pode tocar.
Para
navegar em mares desconhecidos, eles usaram astrolábios; para te guiar no
escuro, siga guiado pelos sons. Eu perguntei se eles também não poderiam me
induzir a erros ou armadilhas no trajeto. Ela respondeu: jamais!
As notas têm alturas definidas, texturas e cores distintas. Elas não sabem
mentir. Enfiou seu focinho comprido no meu cangote e cravou seus dentes, me
alçou e me carregou para o lado mais claro daquela noite.
Não
vi mais outra lua como aquela, o luar fluía de seu
ventre outra lua, refletida no rio à nossa frente. Tudo era só eu e ela. Disse: cala tua boca, deixe que suas pálpebras
desmaiem. É também o silêncio um lago onde vivem os sons; eles brilham quando tocam
seus ouvidos e te dirão quem és e tu deverá deduzir suas origens: quem os
emitiu, de quais lugares provieram.
Falam
em diferentes idiomas e te caberá decifrá-los, traduzi-los, mas nunca os
transcrever. Estou transgredindo essa regra agora. Não deveria te contar esse
segredo, mas, maior que minha ética, agora
corrompida, é o medo de perder minha primeira cria. Tua vulnerabilidade há de
ser percebida por animais maiores. Ergue tuas orelhas e note, elas tremem
quando tocadas pela energia das vibrações. Entram passando pelos ouvidos e
ressoam no peito; é assim que acordam as
emoções que estavam adormecidas. E são belas as notas. E são diferentes, feitas
para convocar sentimentos diferentes. Não é preciso discernir, é preciso ouvir.
Será a música agora, tua bússola e teu oráculo. Nada direi, e nada dirás tu a teus irmãos e a ninguém mais. Eles
gostam de caçar e dilacerar com os dentes; estarão em segurança e aprenderão o mesmo, sem ter
consciência de que aprenderam e de que sabem.
Até
aquele instante eu só tinha aprendido a ter olhos e fechá-los, ter poderes para
poder dá-los. Eu procedi como ela me instruiu e, depois de tudo aquilo que me
foi revelado, escutei; ouvi de outro
jeito.
Havia
pios, sussurros, assobios, grunhidos, vozes, batidas; era uma sinfonia improvisada e executada só uma vez, só
naquele momento. Jamais os mesmos sons se organizariam da mesma maneira,
naquela ordem e naquele ritmo. Então, nós
nos deixamos para sempre, mesmo nos encontrando diariamente.
Penso que ter me ensinado o que eu deveria ter
aprendido só, como os outros, um segredo de matilha, a desnudou, a constrangeu
e, posteriormente a matou.
Antes
disso, ela se perdeu em pensamentos; divagava mais. Parou
de nos guardar, de se guardar; desistiu de viver antes de ficar doente. Lobos não podem
viver assim. Ela sangrava muito, mas me esperou
chegar de longe. Eu a abracei e a lambi. Ela
já não tinha forças, teve um espasmo antes
de abandonar o corpo e ir.
Hoje,
vestido com os pelos que ela fez para mim, ainda volto àquele lugar, em frente
ao mesmo rio. E uivo para a lua, esperando que ela responda uivando de volta.



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