PRIMEIRAS HORAS >> JANDER MINESSO
As primeiras horas do domingo são as melhores. Me refiro, claro, às primeiras horas da manhã. As madrugadas fazendo merda dentro de inferninhos cheios de fumaça e bebida batizada ficaram nos anos dois mil. Foram ótimas, mas tudo tem seu tempo.
O grande abre-alas das manhãs dominicais é o silêncio. Nada de motoboys desesperados buzinando meio quarteirão antes da esquina; nem britadeiras abrindo as ruas para trocar os encanamentos; muito menos aquele constante ruído grave de carros se arrastando pelas ruas. Quando muito, um vizinho puxa a descarga para evidenciar o sossego que vem depois.
Costumo levantar antes da minha companheira e da cachorra, que ficam enroscadas na cama enquanto lavo o rosto e dou aquela tradicional mijada pós-despertar. Pensei em omitir tal parte, mas ela é crucial na somatória de pequenos prazeres que compõem esse momento único da semana. Me sinto até um pouco idiota por cogitar não incluí-la. Como se você não mijasse também. É cada preocupação que invento.
Outro grande momento é a chegada à cozinha, mas admito que esse traz consigo uma pontinha de ansiedade. Gosto de deixar tudo arrumado para o dia seguinte: bancada limpa, utensílios arrumados, cada coisa no devido lugar. Mas às vezes, a outra residente da casa deixa alguma surpresa me esperando na pia, um lembrete que cada ser humano pensa e age de um jeito. Seja como for, logo me lanço ao ritual sagrado de passar o café do jeito que meu pai me ensinou. Esquento a água e jogo um pouco no filtro para umedecê-lo. Em seguida, coloco o pó e despejo mais um tiquinho de água para molhá-lo. Depois, coloco o restante devagar, em movimentos circulares, dividindo a água em dois momentos de extração distintos. Duvido que fique diferente de qualquer outro café passado, mas o processo me faz bem.
Feito isso, preparo meus comes – um ovo mexido, uma fruta, um pãozinho integral, de vez em quando até uma panqueca de banana com farelo de aveia – e sento à mesa para desfrutar o café da manhã. Se der vontade, boto a Natuza Nery ou algum outro podcast favorito, mas não raro como em silêncio, olhando a copa da palmeira que chega até a janela da sala. Engraçado que descrever a cena me fez perceber que sou um sujeito de sorte. Tomo o café sem pressa, observando o não-movimento do mundo lá fora. De lambuja, fico ouvindo meus melhores e piores pensamentos, muitas vezes com o bom senso de não julgá-los.
Em seguida, eu cago. Também não seria justo omitir essa parte. Depois, segue o dia.
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Imagem: Freephotos por Pixabay



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