AMOR DE PUTO >> ALLYNE FIORENTINO
Passo pelos canais e vejo uma
figura conhecida pelas redes, uma daquelas que jamais apareceria em um programa à luz do
dia, pois durante o dia apenas noticiários mostrando pessoas trucidadas eram
aceitos. O trabalho dele era noturno, poeticamente falando porque, na verdade, todo o seu dia, desde a manhã até a madrugada, era reservado para cumprir sua
jornada de sexo por dinheiro. Sim, um prostituto. Mas não qualquer puto, um
puto famoso.
O programa era sobre sexualidade,
bem ao estilo anos 80, um clichê que perpetua a figura da mulher como uma
grande meretriz conselheira das “artes do amor”. E lá estava ela, uma mulher de
meia idade, a apresentadora usava um vestido colado ao corpo, mas sem
vulgaridade, ela tinha de exalar uma aura de mulher bem vivida, bem servida,
satisfeita, experiente e liberal, mas sem exageros, com aquele tom de
“naturalidade”, como que tratando de um assunto delicado e que exigia certa
irreverência, certo traquejo e jogo de cintura (sem trocadilhos!). A grande
inovação era mesmo um garoto de programa falando sobre o porquê de as mulheres
procurarem seus serviços.
“As pessoas têm vergonha de falar sobre sexo”,
“mas sexo e desejo são naturais, são saudáveis” – dizia o puto, “as mulheres
querem sentir prazer de verdade, querem um cara que aprecie o sabor natural das
coisas”. Natural, bem natural, naturalidade... dizia o prostituto, rindo malandramente
e com a agenda lotada, ao passo em que a apresentadora concordava acenando com
a cabeça. “Então você faz o serviço completo?” “Claro, e com carinho, com beijo
na boca, pra mim o sexo começa com beijo na boca – isso eu já deixo claro na descrição
do meu serviço: beijo na boca. Enforco, dou soco na costela, mas se quiser sexo
amorzinho, eu também adoro”.
Com o fim de utilidade pública, é
preciso ressaltar que houve uma época em que garotas de programa não beijavam seus
clientes, seja por higiene seja por moral. Elas queriam guardar o beijo para o
homem que amavam, ao passo que os clientes não queriam sentir na sua boca o
sabor de outro homem. Mas o prostituto famoso não se importava com nenhuma das
duas coisas, era mesmo um diferencial que, na visão dele, agregava valor. Sexo
pago afetuoso. O beijo era o “bônus moral” da putaria, já peço perdão por lembrar do grande Žižek em um momento tão vil, mas estamos basicamente falando
de capitalismo selvagem, sem pudor, sem lubrificante (com o perdão do trocadilho!).
“As pessoas estão mudando a sua mentalidade – continuou falando o GP – elas querem liberdade, querem realizar seus desejos, deus me livre deixar um desejo sem realizar, mas também querem carinho, não querem nada mecânico, por isso que o ramo do pornô afeto é tão promissor”. “Pornô afeto? Explique um pouco disso pra quem não conhece”, diz a apresentadora, “é um pornô natural, sem performance, feito com afeto em frente às câmeras”... para um público que se sentia culpado por consumir abuso em tela, eis que chega a solução. O seu “bônus moral” embutido no produto, como quando você compra um produto que diz usar parte do valor para reflorestamento. Um pacto de íncubos e súcubus: todo mundo sabe que está sendo fodido e que está fodendo o mundo, mas nada de dramas, nem culpa: pagando você consegue se livrar disso. É madeira de reflorestamento. Está escrito na caixa. É sexo afetuoso, está escrito. É liberdade, é desejo, é felicidade, é verdade.
É realmente um programa para as madrugadas, é indecente.
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Imagem gerada por IA.



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