SOMBRAS EM TRÂNSITO >>> Ionio Paschoalin
Nada dura mais
que o instante que voa veloz, secando olhos que fecham e o guardam para si. É impossível
agarrar o que acontece com as mãos, sobram as sensações.
Há luz e não
luz, sombras em trânsito, tudo o que cabe entre extremidades.
Passado e
futuro te seguem como sentinelas cegos que não poderão acudi-lo de coisa
alguma.
Os dias passam
sem pedir licença, esbarram em você e o derrubam; eles correm mais rápido ainda
e não lhe devolvem o que foi perdido. Perdeu tudo o que não estava na memória.
De repente você
acorda e está num ringue onde atores e plateia não conhecem bem as regras. O
primeiro soco te acerta antes que possa se defender. Pergunte para sua alma,
que caminha junto com o peso que carrega, cumprindo funções, só esperando, sem
armas, armaduras ou escudos, achar um oásis que possa abraçá-la.
Basta nascer,
basta resistir aos golpes e quando outro murro te acerta o queixo, o corpo cai
novamente, quase desmaiado, quase desejando desmaiar. Escuta o juiz contando
até o décimo algarismo e você se levanta; destroçado, ossos e dentes quebrados,
um dos teus olhos não abre por completo, está inchado em formato de bolha, meio
preto, meio roxo, inflamado. O outro não enxerga nada além de uma cachoeira
vermelha e quente que escorre do seu supercílio aberto.
Suas pernas
tremem e, ainda assim, levanta os punhos e não sai da arena.
Aprendeu a
conviver com o que lhe dá dores, com o que o dilacera, com o que o mastiga, mas
não há de transpassá-lo! É um corredor polonês a existência.
Um dia você vai
morrer antes do seu passado que, depois de ficar marcado, foi morar entre seu
peito e coração e te deu cicatrizes que roçam a roupa da pele só para te
lembrar que ele existe ainda.
A fé é um tipo
de cordão umbilical entre o que existe e o que há de existir.
Enquanto você espera
que alguma coisa lhe faça bem, rega abismos com absinto que entorpece tudo aquilo
que parece absurdo, por que não? Os rituais nasceram junto com o espírito humano.
Que dia difícil!
Parece que está demorando mais para esvair. Você já apanhou tanto que agora não
cai; acostumou-se a levar sovas em pé. Os calos viram cascas que viram casas,
você está vivendo dentro de uma ferida; sangue pisado do seu sangue.
Para carne
viva, o vento que acaricia e acalenta. E nada mais, isso é suficiente.
Por mais
pessoas que estejam ao redor, sua solidão é um deserto. Logo vem a sede; água,
quem sabe quando? E você precisa beber mais do que água; ser saciado é muito
mais complicado do que parece.
Mas tem uma
coisa boa guardada nos minutos que constroem horas, que formam dias, que
completam anos, que crescem, enquanto os pelos do corpo embranquecem, até
virarem décadas.
Colecionou tudo
aquilo que foi doce, que te alimentou, que te fez carinho, que te arrancou
risadas que quase chegaram às lágrimas, que te amou quando estava permeado pelo
abandono de ser só um contra o resto que é tudo.
Existe um mundo
que te espera, ele vai cuidar das angústias, está fadado a encontrar beleza num
momento de felicidade que fará as ofensas se dispararem como fumaça nos olhos
do céu.
Depois do seu
turno, vai praticar alguma atividade, ouvir uma música, assistir uma novela, um
filme, uma peça, vai ler um livro, vai observar uma tela, uma escultura ou vai
ver um jogo, onde o movimento de um esportista é arte, um rio de fluídos que
brilham, vazando a rigidez das regras. E arte é para curar e nada mais; isso é
suficiente.
Quando estiver
fazendo algo que goste de verdade, perceberá que está vivendo o esperado
momento e, mais uma vez, saiu ileso.
Que a noite
sopre um hálito fresco de folhas e terra para aliviar as queimaduras do sol
desse dia.



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