A VIDA PODE SER UM CAJU >> Sergio Geia

 


Ah, eu me divirto! Ler crônica é uma diversão. Veja esta passagem de Antônio Maria: 
 
“Aproveito a oportunidade para comunicar a todos que não me considero uma pessoa inteligente, e sim infeliz. Feliz é Rubem Braga, que está desempregado, chupando caju e telefonando para as moças”. 
 
O cronista não aguenta o calor do Rio, a leseira, e a necessidade de escrever três crônicas para seus patrões em uma hora. Está deitado, sem vontade de se levantar, e desabafa, reclama. 
 
Então solta essa do velho mestre. Desempregado e chupando um caju. É como se na vida houvesse coisas mais importantes do que simplesmente chorar a falta do trabalho. 
 
Na era da sociedade pós-industrial, do trabalho imaterial, flexível e digital, ainda somos exigidos à exaustão, como máquinas. Trabalhamos, trabalhamos, trabalhamos, até que a mecânica da máquina começa a falhar. 
 
A vida pode ser chupar um caju. Ou perceber a chegada do outono, degustar lombo de porco com tutu de feijão, olhar o mar, a borboleta que roça os cabelos. Ou sentar num banco de praça, quem sabe apenas ouvir. Ouvir o barulho da chuva, ouvir sobre o amor, ouvir o coração. 
 
A vida pode ser um encontro com Machado de Assis, ou um domingo que anoiteceu. O mistério da poesia, os sons de antigamente: tic-tac do relógio na parede, o vendedor de biju, o sino da igreja a tocar. Ou um sonho, um refresco de tangerina, uma cama quente. 
 
A vida pode ser a Dona Teresa e o pedaço de pau, a quermesse, o vento noroeste, ou uma lembrança vaga. Os amigos da rua de antes, o barquinho que vai, o crepúsculo, o rapaz e seu violão, ou uma pequena viagem por dentro. A vida pode ser casa, cheiros e sons, uma oração, pequenas epifanias ou um coração azul. 
 
A vida pode ser a simplicidade do cotidiano, um piquenique no parque, filhos, netos. Pode ser a tartaruga no quintal, banalidades, uma folha vadia, um olhar. Pode ser a convicção de que você não tem convicção sobre nada. 
 
A vida pode ser o Braga, o Geia, pode ser uma crônica que nas primeiras horas da manhã faz você sorrir. 
 
 
Ilustração: Pixabay

Comentários

Jander Minesso disse…
Cheguei a pensar que essa era a nossa função, mas aí começou a parecer trabalho e achei melhor despensar. Mais uma bela penada sobre a beleza do cotidiano, Sergio.
Kiu Oliveira disse…
Beleza na simplicidade. A vida. Belíssimo, Sérgio.
Ismar disse…
Patabens sergio. A vida é muito mais do que podemos imaginar. Simplicidade...
Zoraya Cesar disse…
A vida, vida mesmo, é essa que você sempre nos mostra, a que mora nos detalhes, nas pequeninas coisas. Um verdadeiro discípulo de Rubem Braga, vc, sempre disse, sempre direi.
Albir disse…
A vida pode quase tudo, o vivente é que complica.
Ionio Paschoalin disse…
Sergio, cara que crônica linda! É uma das suas obras primas, sabia?

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