UM MINUTO >> SORAYA JORDÃO


 

É impossível, neste momento, ter assunto mais urgente para tratar do que a tragédia climática e humanitária em curso no Rio Grande do Sul. Qualquer um de nós, independente de regionalidades, sente o tamanho, a dimensão e a profundidade da destruição emocional e social advinda dessa catástrofe. Mesmo os mais apáticos ou desatentos, diante de tantas histórias terríveis e da constatação dolorosa de que a vida não admite garantias, fraqueja. A exceção à regra são os desumanos em estado de putrefação interior. Incluo nessa categoria todo aquele que busca tirar algum proveito da vulnerabilidade das vítimas e da gravidade da situação. Seja espalhando mentiras, seja desviando auxílios, dificultando o acesso à ajuda, cometendo abusos, violência, crueldades ou qualquer tipo de desrespeito ou propaganda em benefício próprio. 

Esses zumbis, infelizmente, estão em toda parte, embora, muitas vezes, passem despercebidos porque se camuflam em trajes de bondade e altruísmo ou em posições sociais que não levantam qualquer suspeita. Para eles, não vejo salvação, pois dizimam todas as leis e limites que esculpem o que se determina humano. Por sorte, são minoria e, mais cedo ou mais tarde, hão de pagar a conta.

Quanto a nós, somos muitos e, à medida que nos unimos, nos multiplicamos em força e ação. Ainda que as necessidades sejam incontáveis e toda colaboração individual pareça ínfima, juntos realizamos o movimento do bordado: o resultado só aparece no somatório de todos os pontos. Qualquer reconstrução se faz no enlace da solidariedade. 

Além da ajuda financeira, das doações de roupas e alimentos, podemos também oferecer escuta e acolhimento. Não aquela escuta apressada em reverter a situação e levantar a moral de quem sofre, a partir dos exemplos de superação e do discurso da fé. Refiro-me ao desafio de ouvir sem querer interromper o luto ou pular suas etapas. Para isso, precisamos suportar o fato de que algumas dores são dilacerantes e quem as sente carece de tempo para mastigar, engolir e, quem sabe, digerir. 

É imperativo calar o ímpeto de transformar a felicidade em um artigo obrigatório e de consumo imediato, urgente. A situação é tão traumática que as palavras não dão conta de circunscrevê-la.

Estejamos atentos a essa mania irritante de querer oferecer exemplos, conselhos, soluções, receitas e explicação para o inexplicável. Ofertemos companhia, olhar, ombro, colo, cafuné e silêncio afetuoso. 

A vida, às vezes, dói. Muito.

Comentários

Ana Raja disse…
É uma tristeza sem fim. Que texto necessário para dias nebulosos que atravessam o povo do RS.
Jander Minesso disse…
Falou e disse, Soraya. Não sei se acredito que “mais cedo ou mais tarde, hão de pagar a conta” os cretinos que se aproveitam dessa situação, afinal o universo é amoral. Mas se pelo menos parte da justiça humana se fizer valer depois que toda essa dor amenizar, já será uma vitória.
Importante reflexão em sensíveis palavras, Soraya. É isso: "A vida, às vezes, dói. Muito." Que a luz da humanidade em cada um de nós possa aquecer um pouco da dor dos nossos semelhantes. (E que bom que há mais luz do que escuridão entre os seres humanos!)
Um ponto de lucidez em meio a um caos.Obrigada por nos contemplar com suas palavras.
Rubem Penz disse…
Você acerta no diagnóstico e no tratamento, Soraya. Brilhante. Muito obrigado por transpor em palavras nossos sentimentos e, também, orientar ações.
Beijos

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