VOCÊ VIVE SEM MEDO?

Meu filho de 6 anos tinha uma garrafa de água cor de rosa que ele levava para a escola.

Um belo dia ele chegou em casa dizendo que precisava de uma garrafa nova, pois rosa era cor de mulher.

Pode parecer besteira, mas nesse dia entendi um pouco melhor o que é um problema estrutural.

É claro que o que eu ensino em casa, no nosso universo particular, é relevante e faz parte da formação de caráter do meu filho. Mas existe algo muito maior do que o nosso universo particular, e se não existir um cuidado dos pais para buscarem escolas e outros ambientes que a criança frequenta que estejam alinhados com os valores da família, o que a criança vai absorver pode não estar de acordo com que você julga importante.

A questão da cor da garrafa pode parecer pequena se analisada fora de um contexto, mas logo a professora observou uma questão de gênero surgindo na turma, e não era para menos, na turma tinham 10 meninos e 4 meninas.

A professora trabalhou essa questão magistralmente, me encantou a sensibilidade e o cuidado que ela teve com a turma, e me fez lembrar de uma vez quando alguém me perguntou se eu não ficava aliviada por ter dois filhos homens, já que o mundo anda tão violento com as mulheres.

Ora, na educação não há caminho fácil. Se por um lado temos que educar meninas para se protegerem, do outro lado temos exatamente o motivo pelo qual elas precisam temer.

Sinto que tenho uma responsabilidade imensa em mãos. Não tenho apenas dois filhos homens, tenho dois filhos homens brancos, loiros dos olhos claros. Aquele padrão que a sociedade adora, e que vai tratá-los como se a vida deles valesse mais do que as demais.

Eu estou mais do que disposta a enfrentar esse desafio. Leio muito, me informo, procuro, dentro das possibilidades da idade deles, conversar, ler livros sobre diversos assuntos e, como disse antes, buscar ambientes que estejam alinhados com os valores que temos em casa.

Mas alguns dias tenho medo.

Quando vejo notícias como a de Julieta tenho medo.

Não tenho medo do ato de educar, tenho medo de não saber ensinar a enfrentar o mundo ao redor.

Tenho medo do que as pessoas são capazes de fazer com as mulheres, medo do que as pessoas são capazes de fazer com crianças, com pessoas com deficiência, com negros ou simplesmente com alguém que te fechou no trânsito ou torce para um time diferente.

Julieta se foi porque alguém acreditou que tinha uma vida muito mais importante do que a dela. Tão mais importante que podia até decidir se ela deveria ou não continuar viva.

Hoje, inúmeras mulheres enfrentam seus medos e se questionam se estão seguras quando precisam viajar sozinhas, se temos mesmo o direito de ir e vir, independente das condições. 

Sei que não vou acertar sempre como mãe, mas com certeza um dia vou explicar para os meus filhos que viver sem medo é um privilégio.

Comentários

Jander Minesso disse…
Não sobra muito para comentar depois de tudo que você disse, Clara. Mas ainda temos muito o que fazer. É um horror que a gente siga vendo atrocidades assim acontecerem.
Soraya Jordão disse…
Adorei a crônica, sua maternagem, a professora, seu filho. Profundo e verdadeiro.

Postagens mais visitadas