A DESVAIRADA >> Carla Dias


Sem fazer estardalhaço, controlando o volume do som gerado, bate a ponta do pé esquerdo três vezes no chão, sem que eles percebam o movimento, truque de enganar ansiedade aprendido com a prima, à qual os familiares chamam de Desvairada. 

Foi a Desvairada que a ensinou a gritar em silêncio, em pensamento, quando os amigos dos pais fazem verdadeiras entrevistas sobre quem a menina se tornará no futuro. Em situações mais incômodas, quando somente o grito não funciona, reverbera palavrões internamente, sorrindo, até que, diante do silêncio, aquelas pessoas desistem de querer saber mais sobre, apenas por não terem mais o que fazer.

Para ela, a Desvairada tem razão: dominar a arte de ignorar o outro, quando o sujeito está na sua frente, querendo saber de você, mas sem real interesse, é cansativo. Questiona-se o tempo todo a respeito do que leva as pessoas a gastarem energia com quem não lhes interessa. 

Sabe que, responder às perguntas com honestidade, sem recorrer às mentiras ensaiadas durante longas conversas sobre como deveria se comportar, irritaria os pais, o que acha bem confuso, já que eles também insistem que ela deve dizer sempre a verdade.

A verdade é que nasceu em um universo no qual não cabe. Convive com pessoas que a usam feito adorno, para compor o cenário das histórias criadas por elas. 

Desloca-se pela casa como se mudasse um móvel de lugar.

Diante do silêncio dela, os convidados sorriram mirrado e voltaram para sala, para mais uma confraternização envolvendo interesses que nunca têm a ver com ela. Ano passado, os pais esqueceram do aniversário dela, por causa de algum evento fantástico que organizavam para a mesma data. A menina sentiu um imenso alívio. Aniversários dela são somente chances para a celebração dos interesses deles.

Sempre que possível, refugia-se nos discos de rock antigo, indicados pela Desvairada – que jura que nem sempre ser antigo significa ser ultrapassado – e milkshake de morango. Quando a flagram praticando tais contravenções, o pai a repreende, cobrando conhecimento sobre ópera, e a mãe suspira um suspiro de falseado interesse, alegando que ela ainda amargará o que o milkshake fará com seus quadris.

Gosta de ópera, mas também de rock antigo, e de outros gêneros que a prima Desvairada lhe apresentou. Tem certeza de que os pais surtariam se soubessem que aprendeu a dançar frevo assistindo vídeo no YouTube. 

A menina se retira do evento, depois de cumprir seu papel de mostrar como a família é importante para os negócios. Vai para o quarto, enfia-se nos pijamas, volta para a leitura. Está no capítulo em que a Desvairada vai ao teatro e sobe ao palco, de repente, para participar do espetáculo. Anima-se com o programa da noite. As poucas páginas ainda não lidas causam certa tristeza na menina, mas ela logo sorri, um sorriso de aprazimento, ao se lembrar que na casa há uma biblioteca.

carladias.com.br

Comentários

Jander Minesso disse…
Baita professora, a Desvairada.

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