ACIDENTE DE PERCURSO >> Soraya Jordão


Quando a porta do desembarque abriu, ele já a aguardava com os braços abertos na sua máxima extensão. Ela surgiu um pouco tímida ou cansada, não sei precisar, caminhando com passos miúdos. Seu olhar avistou o sorriso festivo que acompanhava aquele abraço em espera. Fez com a mão um gesto discreto de repúdio e seguiu em frente. 

O vazio daquela recusa parecia abrigar todos os afetos endereçados, ao longo do tempo, a destinatários não encontrados.

Eu ainda tentava me livrar do gosto insuportável da rejeição, quando ouvi do senhor ao lado:

— Ele ainda foi atrás dela, olha lá, de novo abriu os braços e ficou no vácuo. Coitado!

Senti pena, compaixão, vergonha, humilhação, revolta. Fui arrebatada por uma raiva furiosa daquela mulher desalmada.

Uma senhora, que também apreciava a cena, lançou: 

— O que será que ele fez para ela reagir assim?

Confesso que até então não havia sequer aventado a possibilidade de tamanho descaso ser merecido. Me dei conta de que usei a lupa das minhas dores para interpretar a história e julgar os personagens. 

Que motivos levariam alguém a evitar um carinho? O que resta de possibilidade em uma relação que a proximidade do outro alerta para perigos? Com quantas decepções se destrói a esperança de um recomeço? 

Saí do aeroporto com um medo terrível de me tornar refém de um relacionamento infectado pelo pavor da solidão. 

Não há sentença mais tenebrosa do que estar para sempre ao lado de alguém com quem se está irremediavelmente separado.

Foi angustiante constatar que, às vezes, desembarcamos em lugares que não deveríamos mais visitar, apenas por se tratar de um porto conhecido.

E, enquanto isso, logo ali à frente, o mundo, em sua infinita grandeza, aguarda coragens…

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Imagem © Alex Fischer, por Pixabay

Comentários

Ana Raja disse…
Crônica linda, cheia de imagens. Me senti nesse aeroporto junto com você!

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