SAZONAL >> Carla Dias


Sabe dar nó em pingo d’água, dizeres vedetes do cartaz-anúncio pregado na parede do lado de fora do estabelecimento. Logo abaixo, em letras mais elegantes do que a capitular da chamada, a jura: tenho a habilidade de colar cacos e não ficar devendo à arte kintsugi

Aceitar e valorizar as imperfeições é o seu talento. Não há problema que o faça torcer o nariz ou dar passos para trás. Muito dessa capacidade vem da vivência com o avô, sujeito malquisto na região, de quem outros se negam a pronunciar o nome, tratando-o por “monstro sazonal”, porque havia períodos em que ele se destacava como propagador de harmonia e leveza, mas esses episódios nunca duravam o suficiente para marcar outros com afeto e admiração. Somente o neto se lembra do velho com carinho do menos do qual os outros sempre queriam mais, não feito a criatura que se destaca, mesmo tanto tempo após sua morte, nas conversas dos apreciadores de maldizeres e entediados crônicos. 

Vários profissionais, de diversas áreas de atuação, seguem tentando desacreditar sua habilidade de fazer monstro sossegar o facho, foi o que escreveram em um artigo de revista importante, mesmo que a citação não ornasse com o requinte de suas páginas. Também assume sua limitação: não é capaz de sossegar facho de monstro que ganha prazer ou sustenta ódio de acordo com a quantidade de vítimas. Infelizmente, ainda não aprendeu a contê-los.

Isso porque oferece seu talento ao indivíduo. Não atende em duplas, trios, não ministra workshops para 250 participantes. Monstros que vitimizam no coletivo, trazendo para o atendimento todas as vítimas, ainda que seja para debochar delas. Sossegar o facho de tanta gente ao mesmo tempo, para despir esse tipo de monstro de sua perversidade, é impossível. 

Para ele.

É cabeça aberta, reconhece que não é o único a ter talento para resolver um isso e outro aquilo até gente sentir um pouco de paz. Também acredita que a paz que funciona é a inquieta, feito quem a vive. Se não se desconfia, perde-se a capacidade de reconhecer o valor. Básico e certeiro.

Há quem o tenha por vaidoso, sujeito dedicado a salvaguardar sua condição de reconhecido. Nem desconfiam que é a solidão que o acolhe, e lhe permite viver um de dentro pra fora necessário para ele. 

Senta-se na cadeira da varanda, a vitrola cuspindo música de acalentar alma. A escuridão que recebe seu olhar vai se insinuando aos poucos. Tem lua para isso. Nas formas da mata, na voz dos bichos, no som dos arcos beijando as cordas, dos tambores gritando andamentos, da voz a dizer segredos que nunca foram segredos. Foi ali que o avô lhe contou as histórias que o acompanham desde então, relatos sobre seres fictícios e reais. Alguns deles ainda frequentam sua casa nos dias de celebração, mas não se aproximam se a tristeza foi servida. Aos imaginários, ele dedica tempo de compreender o motivo de visitá-lo. 

Muitos chamam de empatia, mas há vezes em que ele deseja revidar o desdém de quem procura abrigo no seu conhecimento. Há quando pensa em fechar a porta e nunca mais abri-la para o estranho, o compadre, o perdido tentando se encontrar. Lembra-se, então, monstro sazonal, aquela figura que tantos tentavam, mas somente ele conseguiu amar durante todas as estações de si. Quem, depois de oferecer a ele dissabores e fascínios, cortou seu medo de ser pela raiz: existir é sentir até mesmo a falta de sentimento. 

Mas como as palavras dele o transformou, como o transformou, é trabalho para os poetas decifrar. Outro dia, sossegou o facho do monstro de um deles. O poeta chorou de tanto gargalhar. Riu da cara da tragédia. Depois, foi para casa, encontrar-se com a realidade. Sentia desejo de despi-la da sua insistência em domesticar suas emoções.

Imagem © hansiline, por Pixabay


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