TATO >> ANDRÉ FERRER

 

IMAGEM: Gemini

Depois de vários telefonemas e trocas de mensagens, aquele era o segundo encontro. A mulher estava animada e sentia-se pronta para crer numa nova história.

Sílvia penteou os cabelos e sorriu para o espelho. Numa das mensagens, ele tinha comparado a franja dela com a que a Ana de Armas usava. A educação dele era uma coisa sensível e rara. Suspenderia a descrença de qualquer mulher calejada.

Enquanto escolhia a roupa, o telefone tocou. Era uma amiga. Tinha a sua história para contar: metera-se com um incel narcisista. Uma tragédia.

— Eu sei. Eu sei amiga... E o quê mais?

— Precisava falar com você.

— Então?

— Além de ser enganada e humilhada, ele fez um vídeo íntimo.

— Ah! — disse Sílvia. — Como é que você entrou nessa?

— E como eu faço para sair? Queria saber.

— Com esperteza amiga. Bem... Eu estou ocupada agora, mas vou te dar alguns conselhos sim. Ligue amanhã. Tenho home office, um trabalho urgente. A minha chefe está no meu pé.

— Compreendo. Você é um anjo e... A minha amiga mais experiente e safa.

— Obrigada...

Sua burra, pensou Sílvia e desligou.

Na frente do espelho, ela respirou fundo enquanto se maquiava. Queria viver o momento, por isso fora tão fria com a Débora.

Naquela noite, ela tinha a sua própria história para conhecer e desenrolar. Decifrar o enigma. Clarear a situação. Ou ele era o homem mais educado do mundo ou ela estava metida numa roubada.

No primeiro encontro, a escolha do local fora dela, um ambiente neutro. Agora, o seu time jogaria fora de casa... Fazer o quê? O espertinho disse que cozinhava. Nem direito a sorteio eu tive.

Mas não foi de primeira. Deixou-o no stand-by, sem resposta, e aceitou o encontro em dois dias, admitindo o risco. Sílvia sentiu prazer, é claro, mas viu nascer um dilema. Em sã consciência, detectava uma arapuca com facilidade, mas a sua descrença já estava para lá de vencida. Uma descrença hesitante. Mansa. Resignada na passividade. Tudo porque o homem era gentil e educado, joia rara nesses tempos de red pill.

A mulher pegou a bolsa e se olhou no espelho pela última vez. Como combinado, ela aguardou no Trianon. O homem era pontual e gostava de ser chamado de Tato no lugar de Otávio.

— E você? Tem algum apelido de família?

— Não. Mamãe odiava apelidos. “Gente tem nome para ser usado”, ela dizia.

— Rígida.

— Um pouquinho.

O lar de Tato ficava perto da estação de metrô e o prédio era estonteante. Garagem para dois carros. Piscina. Reconhecimento facial onipresente.

No corredor, Sílvia encarou a câmera, que fez um ruído de ficção científica. Um anel saíu de outro anel e outro surgiu do mecanismo, que era a própria Matriosca da vigilância residencial.

De repente, a mulher sentiu-se registrada e, com certeza, seria reconhecida. Os contornos do seu rosto, comparados com o registro feito naquele momento, descartariam qualquer perigo e, doravante, seria inofensiva para o algoritmo.

Sílvia respirou. Por um segundo, pensou na probabilidade da sua volta.

Quanto a isso, caberá a mim decidir... Okay? Dependerá de tanta coisa! Por outro lado, sinto que a minha desconfiança é quase inexistente e tenho um grande palpite de que voltarei.

O príncipe sorriu. Colocou o indicador no painel a fim de chamar o elevador. Assim que o fez, ele sorriu de novo e a descrença da mulher agonizou completamente soterrada na felicidade. O elevador chegou e Tato fez as honras.

— Já vamos chegar — disse.

Ela assentiu com os olhos.

Quando entrou, foi tomada por uma urgência, velha aliada sua, e soube exatamente o que estava acontecendo enquanto o alarme tocava e a descrença reagia, levantava-se acima da superfície, tossia, respirava. No silêncio, o elevador rangeu e Sílvia cerrou os lábios na melhor poker face que podia. Tato tocou no seu ombro.

— Meu amor — disse ele. — Você sabe que eu tenho um hobby: a fotografia.

— Sei.

— Pois, é! Eu gostaria de fazer um ensaio com você.

— Quem sabe um dia.

O homem sorriu. Sílvia só esperava que a comida fosse tão boa quanto uma ilusão passageira.

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