CAMINHADA >> Carla Dias
Com essa oportunidade, decidi que iria e voltaria a pé do local. No primeiro dia, pensei que fosse impossível. A ida até foi tranquila. Na volta, as pernas pareciam negar-se alinhar à minha dedicação. Achei que não fosse conseguir concluir a caminhada, que teria de recorrer ao ônibus. Insisti, cheguei em casa acabada, quase incapaz de subir os três lances de escada do prédio onde moro, mas a pé.
O tempo de ida é sempre o mesmo: cerca de 40 minutos. O da volta depende do corpo. Noite passada, a insônia me fez companhia. Dormi, no máximo, três horas. Acordei às 5h30, porque sou das que não sabem sair de casa no corre. Cheguei ao local às 8h22. Uma hora depois, inicio a jornada da volta. Pensei que não fosse aguentar. Tinha sido difícil manter o foco no compromisso, meu corpo pedia cama; quanto aos meus olhos, mantê-los abertos foi um exercício extra. Saindo de lá, saquei o celular e abri o aplicativo de transporte. Não conseguia sequer cogitar caminhar até o ponto de ônibus mais próximo. Não passou nem um minuto até que eu colocasse o telefone na bolsa e seguisse a pé.
Há alguns anos, essa caminhada tinha a ver com algo mais: adoro observar casas, o que faço desde pequena. Imaginar o que acontece nelas é algo que me acompanha desde sempre, ajuda até mesmo com a criação literária. Mas também aprecio o sol fazendo sombra na rua, destacando-se entre os prédios, as árvores alinhadas, como se seguissem para um lugar no qual se sentissem em casa.
Hoje, quando saí de casa, alguns acontecimentos me distraíram dos diálogos internos durante a caminhada: um caminhão grande demais para a vaga me fez andar na rua, com um monte de carros sendo guiados por motoristas superapressados. Um motociclista passou atrás de mim daquele jeito, sabe como? Quando sentimos o casaco de alguém bater nas nossas costas e, sem pensar, dizemos “foi quase”. O sinal estava verde para mim. Uma das calçadas estava com menos da metade disponível para os passantes. Desta vez, foi um pé na calçada e outro na avenida. Ainda nela, mas já aberta, dancei com uma pessoa que não olhava para frente. Ela veio direto em minha direção, desviei e disse “oi”, para que se atentasse à minha presença, e ela veio junto; tive de dar um pulo pro lado para não nos chocarmos, o que, para mim, sempre é um risco de tomar um tombo cinemax. Mais à frente, um ciclista veio pela calçada e não desviou; mais uma vez, eu tive de desviar. Atravessando a faixa de pedestres da entrada do estacionamento do shopping, um carro veio pra cima quando eu já estava na metade da faixa, como se eu nem existisse, parou bem pertinho. Tive de dar aquela corridinha para ele passar... não teria de ser o contrário? Ele parar para eu passar. Quer dizer, eu já estava passando.
Na volta, no quarteirão seguinte ao do local do meu compromisso, um rapaz, um pouco à frente, disse “bom dia”. Não recuso cumprimento de ninguém, sempre devolvo a gentileza. Olhou pra mim, mando um “bom dia”, “boa tarde” ou “boa noite”. Assim que passei por ele: “Moça, pode me ajudar?” Parei e olhei para trás: “Pois não”? “Dá pra senhora ver se tem sujeira na minha camisa, nas costas?” Virou-se, conferi: “tem não”. “Ah! Caiu algo molhado da árvore, achei que fosse cocô de passarinho. Muito obrigada”, sorriu no agradecimento. Sorri de volta e então continuei no meu caminho.
A rua na qual seguia, uma subida danada até chegar à minha casa, tornou-se um obstáculo feroz ao meu dormir apenas três horas à noite e sair na caminhada. Um quarteirão antes da avenida onde moro, olhei para dentro da loja onde são vendidos apenas ovos. Sempre os compro ali, porque achei interessante, na primeira vez, ler as informações sobre os ovos e as galinhas estampadas na parede. Além disso, o senhor da loja é um sujeito muito simpático.
Ele sorriu, e eu sorri de volta. Me deu bom dia, respondi “bom dia!” e ele concluiu: essa subida é um castigo, né?”. Né...
A verdade é que fiquei feliz, ainda que na exaustão, de não ter desistido de voltar para casa a pé. E torço para ter conferido direito a camisa do moço do cocô de passarinho.
Agora, enquanto finalizo essa crônica, minhas janelas estão com as cortinas fechadas, pregadores segurando algumas partes, na tentativa de minhas plantas aproveitarem um pouco da claridade do dia. O vento está ousado, o alerta de fortes chuvas foi recebido. Os fones de ouvido ajudam a me concentrar com uma música em repetição. Se nunca a escutou, sugiro conferir: Lenny. Stevie Ray Vaughan até ajuda, mas escutar a música serve apenas para amenizar o som alto, forte, porrada mesmo que tem vindo lá de fora nos últimos dias, resultado de um impacto que faz o chão do apartamento vibrar: bate-estaca.
Ainda bem que, apesar da aventura de hoje, eu vi casas incríveis pelo caminho. Em algumas, morei durante alguns passos e ousados delírios.
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Uma amiga acabou de me avisar sobre o falecimento de um músico que adoro, talentoso que só, inspirador que só, que vai fazer falta nesse mundo. Glen Hansard foi encontrar Stevie Ray Vaughan.



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