ESTRELA CADENTE >> ALLYNE FIORENTINO


O céu da metrópole acontece em recortes. Não é que a curiosidade humana pela imensidão diminuiu, mas os seus olhos precisam achar um canto de infinito entre prédios e bojudas nuvens de fumaça para flagrar qualquer astro.

É por isso que sumindo pelas estradas país adentro, roubando o tempo do mato rasteiro, avançando pela saudade de um vaga-lume que não existe mais, deito meu corpo no chão nu, esperando o abraço de Neuth, que engole a tudo sem fúria.

Sinto o peso do firmamento no peito, esmagando minha insignificância sem me sufocar, como uma mãe imporia sua grandeza com doçura. A noite nos ensina sobre as coisas que nunca mais veremos. Não pela morte derradeira, irremediável, mas por tempos e acasos inexplicáveis. Perde-se um cometa e ele não passará novamente a tempo de te achar em vida, mais um eclipse se perdeu em meio à cadência dos dias, quem sabe daqui 25, 50 anos se o amanhã não nos consumir.

Um desencontro em um dia infeliz e seguimos confiando que teremos outra volta, mesmo que os céus nos ensinem todo dia que as órbitas são longas e que elas te levam, docemente entorpecido, para longe de tramas muito valiosas. As causas ficam escondidas por detrás das línguas, parece mesmo que uma série de eventos naturais varreu a costa da praia e ninguém viu nem sabe narrar - foram tempos e acasos inexplicáveis.

Sigo inspirando e expirando o hálito da deusa, com meus olhos sorvendo até o último fôlego o agora do céu, a estrela cadente que acabou de passar (ou foi há muitos anos?). Tento ressoar em seu rio de tempo, me perdendo em ondas que me levarão a ela novamente, depois de dias... anos... parecendo mesmo que não passou nenhum minuto.                     

Um pedaço pequeno de pedra estelar, coisa ínfima que cai aqui e, ainda assim, é um rastro de luz na escuridão.

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Imagem: Magnific.

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