VAMO ALI COMIGO? ALLYNE FIORENTINO

 


Pego o molho de chaves da casa, o da mãe, com o chaveiro colorido. O molho de chaves do pai, esse não podíamos pegar. Ele sempre tinha mais chaves que o da mãe, embora nunca soubéssemos a quais fechaduras pertenciam; o chaveiro era daqueles que você podia abrir e acoplar no cós da calça para não perder. O chaveiro do pai era sagrado, só podíamos pegá-lo em caso de emergência. Criança não tinha a chave de casa, um cuidado que gerava mais contratempos do que benefícios em minha opinião.

Era uma eterna estratégia de quem saía ou deixava de sair e com que chave, se entra ou sai de casa, se quiser entrar tem de necessariamente ter alguém pra receber ou então vai ficar do lado de fora aguardando. Engraçado como tudo isso podia ser resolvido com uma cópia a mais de chave, mas essa dinâmica nos fazia ganhar habilidades de organização, noção de tempo e, às vezes, de premonição. O mesmo fazíamos com a Tv. Era raro uma casa ter mais de uma televisão, o que nos fazia treinar as habilidades de diplomacia e negociação.

Abro o portão e estico os olhos para a casa do meu amigo. Aperto um pouco para focar na casa lá do outro quarteirão. Não tem ninguém em frente.

— Mããããããeeee – grito.

— O quêêêêêê? – ela grita de volta

— Vou ali ver se o Bruno tá em casa.

— Tá bom, mas não demora que eu vou precisar da chave pra sair.

Levo exatos dois minutos caminhando até a casa dele, tempo em que pude ainda ver se o carro do pai do Rafael estava na garagem. Não estava. Rafael deve ter saído com os pais, onde estaria? Talvez na casa do tio dele, o Edvaldo, brincando com os primos. Aqueles garotos chatos, ainda bem que eles vêm pouco aqui no bairro. Chego ao portão do Bruno, dou uma espiada para ver se a janela está aberta.

— Bruuuunoooo. – grito em direção ao interior da casa e aguardo enquanto ouço alguém lá de dentro falar com voz abafada “tem alguém chamando no portão”. Logo aparece a mãe de Bruno na porta.

— Oi, tia, o Bruno ta aí?

— Tá, sim. Vou tacar a chave pra você. Segura!

E tacava o molho de chaves da casa dela. Eu já sabia de cór qual abria o portão, a porta da frente e a porta do quintal, até mesmo o macete pra abrir o cadeado, tinha de forçar um pouco. O pai de Bruno quase quebrou a chave dia desses tentando abrir.

— Cê ta boa, tia?

— Eu tô e você, meu filho?  E sua mãe?

— Tá, sim! Cadê o Bruno?

— Tá lá no quarto.

Dirijo-me ao quarto. Ouço do corredor que Bruno está com o rádio ligado ouvindo a Jovem Pan FM.

— Ou, tá fazendo o quê?

— Limpando meu quarto. Se eu não limpar, minha mãe vai cantar a chinela em mim.

— Vamo ali na padaria comigo.

— Não, eu tenho que limpar aqui.

— É rapidinho! Ô tiaaaaa, o Bruno pode ir ali na padaria comigo? – grito para a mãe dele.

— Pode, mas não demora que o almoço tá quase pronto – ela responde. Pega a chave aqui em cima da mesa, Bruno!

— Bora, fi. A gente vai na padaria, deixa as coisas lá em casa e eu volto com você pra te ajudar a limpar o quarto. Já tocou aquela música nova?

— Ainda não, eu tô ouvindo desde cedo, mas eles estão enrolando. Vamo logo que se tocar na rádio eu quero gravar na fita.

E saíamos os dois, cada qual com o molho de chaves correspondente às devidas portas. A padaria ficava a cinco minutos de caminhada, na rua debaixo. Tempo suficiente para trocar todo tipo de informação. Naquela época, aproveitávamos a amizade em cada instante ocioso, a vida afetiva acontecia nos entremeios, misturada às tarefas chatas e cotidianas, em cada oportunidade em que a vida de um se mesclava à vida do outro: ir à padaria, lavar a louça, receber visitas de primos distantes, almoçar, jantar, lanchar, ir ao supermercado fazer compras. A vida não parava para a amizade acontecer, nada de tentativas de marcar encontros, conversas, saídas... Era orgânico e canônico, ir à padaria exigia intimidade. Não se clama a companhia de qualquer um para isso. 

E, em pouco tempo, as vidas entravam em um ritmo próprio em que uma não se sobrepunha à outra e continuavam respeitosamente convivendo. Criando laços invisíveis e duradouros. O afeto crescia porque de perto, bem de pertinho, tocando com cuidado a sombra escondida do indivíduo, todo ser humano é passível de amor. Sabíamos tudo quanto era possível saber uns dos outros, e a vida íntima das famílias era espantosamente parecida, a única coisa que mudava era a trama das fechaduras e os molhos de chave das mães: sem eles, nada disso teria sido possível.

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Imagem: Magnific.

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