ÓCIO >> JANDER MINESSO
No último feriado, me entreguei ao ócio. Depois do almoço, botei o Disintegration na vitrola, deitei no sofá com o encarte nas mãos e decidi que era justo não pensar em trabalho num dia de folga.
Quando a parede de teclados de Plainsong explodiu pelas caixas de som, meus olhos já estavam pesados. Mas não dormi; fiquei naquele lugar mágico entre o sono e o mundo desperto. Quando conseguia, lia um trecho das letras que já sabia de cor desde a adolescência. Nas partes instrumentais, deixava a preguiça me levar pelas marés de riffs cheios de ecos. Em algum momento, a cachorra pulou no sofá e se aninhou perto dos meus pés. Quando virei o disco, ela já estava roncando.
A luz lenta do sol de inverno refletida no prédio da frente me agredia um pouco os olhos. Coloquei o encarte na frente do rosto para me proteger e acompanhei o Robert Smith em Lovesong. Ele disse numa entrevista que não gostava muito da música e que ela era só um presente para a esposa. O cara poderia ter comprado uma pulseira da Vivara, mas em vez disso resolveu compor um baita hit.
Meu pé começou a formigar, já que eu estava cada vez mais torto para que a cachorra ficasse confortável em seu sono vespertino. Quem nunca? Tentei me ajeitar devagar para ver se a circulação voltava ao normal, mas no meio da manobra aquele protótipo de Chewbacca acordou, rosnou para mim e foi para a própria cama. Aproveitei para colocar o segundo disco e fui buscar água enquanto Prayers for Rain começava a tocar.
Voltei para o sofá e a Natuza Nery invadiu meus pensamentos com a história de que vem aí o El Niño mais avassalador de todos os tempos. Havia escutado o podcast dela sobre o tema há alguns dias. Sentia meus pés gelados dentro das meias e escolhi me preocupar com o calor infernal, a seca, as enchentes e as inexoráveis calamidades depois. A chuva no começo de The Same Deep Water as You ajudou a acalmar meus pensamentos e, confesso, dei até uma cochilada mais profunda.
Acordei com uma briga de canários em algum lugar da vizinhança e virei o disco para o último lado. A música-título do álbum entrou arrebentando tudo e eu sorri enquanto olhava o sol na parede bege do condomínio do outro lado da rua. A cachorra voltou para o sofá e fincou as patinhas no meu peito.
– Frida, deita.
Ela deitou em cima de mim e ficamos curtindo juntos aquela hora de sossego, fazendo nada a não ser ouvir o melhor disco da minha banda favorita. No silêncio entre Homesick e a última faixa, consegui ouvir minha esposa trabalhando no quarto que ela usa como escritório. Pensei nas nossas viagens; em quando ela confessou que pensou em ir embora; em quando eu pensei em ir embora; e no cafuné que ela me faz enquanto assiste à novela. Lembrei também de amigos que estão num momento terrível e continuam vivendo um dia após o outro com pouco mais do que a cabeça fora d‘água. Lembrei ainda do meu pai, que faria aniversário no dia seguinte se estivesse por aqui. Eu, por outro lado, tinha toda uma tarde de inverno sem nada para fazer. Quando o disco acabou, guardei-o no lugar e vim escrever.
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