ESPERA >>> KIU OLIVEIRA


 

Meu pai encolhe os olhos ao me ver chegar sem minha mãe. O médico me conduz até um canto reservado do quarto, “a qualquer momento, ele virá a óbito. O coração está fraco, não há o que fazer. Talvez ele não amanheça. Melhor avisar os outros familiares”. Então sai a passos rápidos pela porta que dá acesso ao corredor do hospital. A enfermeira recolhe os instrumentos e outros materiais usados pelo doutor durante o exame. Depois arruma as pontas do lençol da cama onde meu pai termina sua existência. Não há mais a necessidade dos serviços dela, mas avisa que, se precisar de alguma coisa, é só chamar. Sai e fecha a porta. 

“Sua mãe não vem, filho?”, a sua voz está se apagando, ainda assim, afunda em meus ouvidos, na pele, na memória. 

Palavras ácidas me vêm à ponta da língua e queimam a minha boca. Meu pai não as suportaria, então não respondo, apenas o observo. Não há mais força em seus olhos, a pele perdeu o viço. Foi um homem duro a vida inteira, armado com palavras ásperas. Agora está mole feito filhote indefeso, implorando visita. 

“Você deu meu recado pra ela?”, insiste, o olhar opaco. 

Confirmo com um movimento de cabeça. 

Ele fecha os olhos, por eles escorrem filetes d’água. Chora a própria morte ou pela vida que escolheu? Penso em perguntar. 

“Não chora, pai. Não vai te ajudar”, vou na contramão do pensamento. 

O choro aumenta. 

“Precisa se acalmar, seu coração está cansado.”

Ele leva as mãos ao peito. Permanecemos calados por algum tempo. 

“Eu só queria me desculpar”, seca o rosto. 

O que você quer é aliviar seu remorso, e tentar encobrir a sua canalhice com um pedido de perdão. Espero que minha mãe não entre por aquela porta!, grito, em silêncio. 

“Me ajuda a levantar?”, pede enquanto se senta na cama. 

De novo, vou contra a minha vontade. Ele se apoia em meu ombro e me pede para ir devagar. A memória do dia em que ele nos abandonou bate forte enquanto o guio em caminhada pelo quarto. Sei que são seus últimos passos, por isso engulo cada lembrança ruim. Ele respira com dificuldade, engole gemidos, então avisa que quer voltar. 

Já deitado na cama, olha para um lugar distante, alguma esquina de sua caminhada. Olhos vazios. O que procura? 

“O que você diria pra minha mãe?” 

Os olhos dele centelham. 

“Pediria perdão. E agradeceria por ela ter criado você tão bem.” 

“Então se desculpar é isso: dizer algumas palavras?” 

“Eu a machuquei de todas as formas possíveis. Nada vai mudar isso, eu sei. Ainda assim, preciso fazer...” 

“Por que só agora?” 

Com a voz baixa, ele diz que deseja perguntar se minha mãe ainda se lembra de quando se viram pela primeira vez, se ainda guarda a aliança, se tem alguma foto deles, do tempo em que dividiam a casa, a cama, a louça, os sonhos. A voz rareia a cada palavra. Fala de quando era outra pessoa, sem vícios, de quando não tinha sobre ele um monturo de escolhas ruins. Pede para eu entregar um recado à minha mãe: “vou esperar por ela...”, tenta dizer algo mais, mas a voz falha. Vira silêncio. 

Apago a luz do quarto e saio. 

Minha mãe me espera no corredor.

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