A OUTRA OPÇÃO >> Sergio Geia
Depois de certas idades, as doenças se insinuam na conversa de dois amigos quase sessentões. Num certo momento, ele disse rindo:
— Mas Sergio, qual doença você não tem?
Dias depois, o comentário voltou ao pensamento. Peguei papel e caneta. Anotei:
Hipertensão.
Pré-diabetes.
Gastrite crônica.
Esteatose hepática.
Pedra no rim.
Ácido úrico (elevado).
Glaucoma (controlado).
Vitamina D (baixa).
A lista, escrita assim, uma doença por linha, tinha algo de inventário. Ou de prestação de contas.
Depois da consulta anual ao cardiologista, meus remédios matinais passaram de um pra três. Some-se a isso o colírio, duas vezes ao dia. Segundo o urologista essa é a nova tendência, pelo menos um remédio a mais a cada ano. Estou devendo visitas ao gastroenterologista, oftalmologista, endocrinologista e dermatologista, e já estamos em julho. Agora uma dor nas costas. Além disso, a dor causada pela tendinite no braço esquerdo parece ter voltado. Já vislumbro no horizonte uma visita ao ortopedista.
Como se não bastasse o aumento dos remédios e dos especialistas, contei brincando a história no trabalho, e Márcia, espirituosa, perguntou se eu já tinha contratado um plano funerário.
Foi quando uma frase de Philip Roth me veio à mente: envelhecer é um massacre.
Talvez seja, mas continuo “ainda” preferindo essa alternativa. Primeiro porque, olhando para a minha lista, percebo que parte dela ainda pode ser encurtada com algum empenho, disciplina e uma dose razoável de teimosia.
E depois porque a envelhescência — palavra feia, mas honesta — continua sendo infinitamente mais atraente do que a outra opção disponível.
Ilustração: Carla Dias



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