O EVENTO UNIVERSAL DA CRIAÇÃO DOS BOLSOS >>> NÁDIA COLDEBELLA



Em lugar não divulgado por medidas de segurança, arqueólogos modernos encontraram, intactos, documentos antigos e misteriosos que revelam a história secreta da humanidade. Entre os achados, um dos registros descreve um impressionante acontecimento histórico, cujo marco zero remonta ao tempo do primeiro homem e da primeira mulher. Trata-se do “Evento universal da criação dos bolsos”, assim mesmo referido nos escritos.

Os textos informam que os primeiros indivíduos humanos, nomeados Adão e Eva, viviam num Éden muito particular. Além de serem sarados e perfeitos, andavam por aí livres, leves e soltos, curtindo a brisa nas muitas partes do corpo. Nessa época, a primeira verdade filosófica da humanidade foi gravada na parede de uma caverna das redondezas, em forma de pictograma: “Só é feliz quem não precisa carregar nada nas mãos.”

Esse truísmo foi evidenciado quando o primeiro plot twist da história aconteceu, protagonizado pela primeira advogada, que já havia sido criada e havia se infiltrado na história em forma de serpente. Observando os humaninhos em um debate acerca do que podiam ou não comer, numa evidente tentativa pífia de driblar as regras do Criador devido à ganância já nascida, mas não reconhecida, a exímia causídica logo compreendeu que o futuro do Direito estava na interpretação das normas para benefício do cliente.

Amparados pela defensora, os pombinhos deram bocadas e bocadas naquela maçã; depois, culparam-se mutuamente e tiveram a primeira briga de casal — constituindo-se essa, provavelmente, no primeiro caso do Direito de Família.

A ingestão da maçã promoveu a ampliação das consciências naquele fatídico momento presente (não está registrado se isso ocorreu em consequência da própria maçã ou de algum outro composto adicionado). Mas o fato histórico revela que ambos constataram que estavam peladões, não tinham um guarda-roupa decente e precisavam dar uma passadinha no shopping.

Nesse momento, também reconheceram a própria ganância e se orgulharam dela. Quem se contenta com uma roupa quando se pode ter todas? Folha de parreira, pele de animal? Que nada! O lance é sair das compras de mãos cheias.

Aqui está, caro leitor, uma verdade inestimável ensinada pela história aos tempos modernos: com muitas coisas nas mãos, a felicidade começa a ruir. E a liberdade começa a apodrecer. Isso fica evidente no comportamento de Adão e de seus descendentes. Os registros ocultos referem que, voltando de uma caçada com as mãos cheias de carne e peles de búfalos albinos, cogitaram acerca da falta de praticidade de não possuírem um lugar para guardar o tacape e as mercadorias. Essa foi a segunda grande frustração humana; a primeira foi constatar que precisariam trabalhar para comer e pagar as contas.

Certa manhã, sentada em frente à casa, observando os cangurus e matutando o problema do marido, Eva teve a súbita compreensão que mudaria a história:

— Adão, por que não fazemos algumas bolsas?

Depois disso, a coisa não parou mais. A bolsa trouxe a necessidade de colocar coisas dentro dela e, aí, toda sorte de objetos era guardada.

Faço um parêntese: a invenção da bolsa também inspirou a invenção de cintos e sapatos, que pareciam convenientes para segurar as calças e proteger os pés durante uma caçada. Vendida como singela verdade, essa teoria não passa de uma baboseira histórica. É incontestável, nos livros ocultos, que o cinto e o sapato nasceram para complementar a bolsa. Afinal, como uma pessoa pode usar uma bolsa sem ter um sapato e/ou um cinto combinando?

A bolsa, que se firmou como um apêndice nos braços pré-históricos, incorpora, desde sua criação, um princípio físico muito avançado: ela capta o vácuo e cria um espaço de uso impressionante num objeto tão pequeno. Esse fenômeno revela, contudo, um paradoxo: se você abrir uma bolsa, encontrará todos os tipos de objetos, menos, é claro, aquilo de que mais precisa.

Embora tenha feito muito sucesso com a turma das caçadas, devido às suas questões paradoxais, a bolsa constituía um grande incômodo quando se tratava de achar coisas necessárias rapidamente. Havia sempre o risco de alguém ser comido por um leão enquanto procurava uma pedrinha ou um sanduíche naquele pequeno envoltório sem fundo.

Eva, ou alguma descendente dela — registrada nos escritos como “a mulher” — resolveu também esse problema. Logo entendeu que poderia costurar pequenos pedaços de tecido junto às roupas que o marido usava, criando vácuos pequeninos para o acesso rápido às pequenas coisas.

E foi assim que nasceu o bolso, derivado da bolsa, que, soubemos logo depois, foi responsável pelo segundo plot twist da humanidade.

Nessa época, a inconveniência do escambo já era óbvia para a maioria e, com a invenção dos bolsos, também foi criada a necessidade de se colocar algo dentro deles. Dinheiro, no caso, que resolvia o bolso vazio e as mãos ocupadas.

Aqui também surge a segunda grande verdade filosófica, bastante conhecida e registrada abundantemente nos escritos modernos: “O dinheiro é a raiz de todos os males”, porque sai do bolso para as mãos, e a gente sabe que quem tem mãos segurando alguma coisa dificilmente será feliz. Especialmente porque os humanos passaram a gostar de encher os bolsos de dinheiro para se exibir com as mãos cheias e, logo, toda espécie de corrupção também nasceu. Afinal, os fins justificam os meios.

Isso meio que ficou óbvio quando a enorme quantidade de dinheiro não cabia mais no bolso. A solução foi inventar o banco, o “grande bolso da humanidade”, cuja função principal foi esvaziar os bolsos e liberar as mãos.

Os livros misteriosos debruçam-se sobre essa questão, talvez o primeiro grande dilema psicológico da humanidade. O ser humano não soube lidar com a angústia que surgia das mãos desocupadas. A essa liberdade e felicidade, ele não estava mais acostumado.

Muitos descobriram uma nova função para o bolso: guardar as mãos. Encontraram uma paz quase transcendental. Essa foi a raiz do minimalismo.

Outros, no entanto, ao se depararem com as mãos vazias em bolsos vazios, perturbavam-se ainda mais. E assim nasceu o cartão de crédito, uma invenção que concentra uma grande quantidade de dinheiro num minúsculo espaço e cabe numa mão que está dentro do bolso.

Atualmente, os estudos sobre bolsos estão em franco desenvolvimento, especialmente na Filosofia, uma vez que o bolso emerge como um sinal da evolução humana. Ela formulou uma nova pergunta existencial: se os bolsos começarem a desaparecer, desaparecerá também a nossa humanidade? Como toda pergunta existencial, a resposta depende da concepção de homem e de mundo do perguntador.

No entanto, o fato é que hoje temos tecnologias que permitem guardar uma quantidade quase infinita de informação em nuvens invisíveis. Um tipo de bolso, claro. E isso é muito prático, mas nada se compara ao prazer de achar uma nota de cinquenta no bolso do casaco.

Isso é um fato. Científico, histórico e filosófico. Até advocatício. E, contra fatos, não há argumentos.

 

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