PODER E LÂMINAS >>> Ionio Paschoalin

 


O homem esperava pela audiência na antessala.
Sentia uma angústia diferente das que o afligiram outras vezes. Não queria estar ali, tinha para si que seu ofício era o de escritor e passaria o resto de seus dias redigindo crônicas, não fosse a influência dos pais e avós, que eram políticos. Suas lutas objetivavam a harmonia entre o trono e o povo. Era o legado de seu sobrenome  maior que seus sonhos, e ele acabou exercendo a função herdada.

No dia em que despediu- se do pai, observou, no rosto velho e cheio de marcas, um sorriso. Dele veio a última frase: "Filho, você me orgulhou. Tive a honra de ser seu tutor. Morro aqui, mas não o abandonarei; agora, a sua obrigação é com o nosso reino. Proteja-o, peço-te. Eis a minha súplica". Disse isso e, em seguida, desfaleceu e não respirou nunca mais.

Quando foi chamado para ter com o novo líder, foi recebido com arrogância e frieza próprias dos que detêm aquilo que não podem controlar. Ouviu em silêncio um discurso que lhe pareceu absurdo. Denotava a incapacidade do soberano de governar e tomar decisões que a todos afetariam. Sentiu-se ofendido e, não mais podendo calar-se, respondeu:

— Maldito! Serão amaldiçoados os teus descendentes; lembra-te disso quando as tuas botas escorregarem em teu próprio sangue e a espada não tiver mais fio para cortar; foste tu que decretaste o destino deles! Quem pensas ser enquanto vomitas da tua boca suja tais blasfêmias? Não cuidaste de teu pai e tampouco da tua mãe. Esse trono pertenceria a teu irmão, que era digno; tu só estás aqui porque ele jamais acordou daquela noite. Não há soldado que afirme ter testemunhado. Ninguém que lutou ao vosso lado naquela batalha ousou acusar qualquer culpado. Não terias sido tu que o apunhalaste? Quem teria mais interesse nesse assassinato? Certamente o sucessor do poder, caso ele estivesse impedido de sê-lo.

— Ha, ha, ha... Como são pequenos os menores! Antes de eu te contar como será tua vida a partir de hoje, apresento-te uma questão: o que cessa meu ímpeto de cravar meu punhal na tua garganta agora mesmo e assistir ao teu sangramento como um espetáculo? Não respondas, eu te proíbo! Terei um enorme prazer em descrever a cena para que assistas à tua própria morte. Antes de o desespero te transtornar, o punhal volta da tua glote dilacerada; depois tua artéria explode, é um esguicho. Queres vociferar, mas não há mais voz. Já sem ar, teu corpo vai perdendo o espírito, mais e mais, pouco a pouco. Então, finalmente, tua vida inteira passará pelos teus olhos e será essa a tua derradeira visão. Eu continuo Rei e sei que, no inferno, o que restou de ti sentirá rancor por toda a eternidade e ainda depois. Saberia responder por que não o faço? Porque tua vida de inseto que rasteja me pertence; és uma mosca em minhas teias. Teus bens são meus, assim como tua liberdade, esposa e filhos. Até tuas ofensas são minhas, pois da tua boca também sou dono. Prefiro-te como escravo.

— Porco! Então seria esse o primeiro ato de alguém que pretende ser o monarca de todo um povo? Queres calar-me? Pois como calarias todas as bocas que te maldizem? Tens o apoio temporário do senado, mas não há o que te suporte na posição que almejas. Não há quem respeite tua hierarquia autoimposta. Que aldeão te reconheceria se caminhasses pelos mercados? Se fosses notado, e os passantes viessem ter contigo, o fariam para enforcar-te, tu o sabes. Ou cozer-te-iam num caldeirão do tamanho da tua covardia, untado com a banha que arrancariam da tua barriga. Quem poderia antever com precisão os atos que daí sucederiam? Não tens nem o apreço da gente que te faria verdadeiramente um rei, nem a bênção de Deus, que há muito recebe ofensas através de teus insultos.

— Mencionas popularidade? Acaso não desconfiaste em qualquer momento que só é popular o que é permitido, o que é dado? Em verdade te digo: tudo o que eles têm é também do meu pertencimento. Se fazem sons, que chamam de música, com flautas, aulos, rabecas ou alaúdes, é devido apenas a minha benevolência. Mencionas meus súditos?

Consideras as mãos de Deus imprescindíveis para o meu domínio? Pois bem sabes que há muito, caminho no estreito fio forjado pelas ceras derramadas das velas que acendi, ora para as divindades, ora para os demônios. Sobre estes discrimino duas espécies: os mais cruéis e os ainda piores, os periculosos; eles me fizeram capaz de recitar feitiços que obrigam o próprio Lúcifer a me prestar favores. Não que ele goste de tal situação. Inquiro-te: de que me valem os favores dos céus se tenho a meu dispor a obediência das trevas?

Gargalhava, mas isso não dissipava sua fúria; pelo contrário, ela alastrava-se como o fogo em palha seca. Antes de concluir, atirou um vaso que se estilhaçou contra a parede. Os cacos espalhados pelo chão representavam uma curiosa analogia com as metodologias empregadas nesse início de governo.

— Gente como tu jamais compreendeu, não entende e não há de discernir o que é atingir a grandeza e almejar ser ainda maior!

— Julgas ser maior que um rato? Nunca foste grande e, portanto, jamais receberás o amor daqueles que poderiam sustentar tua liderança tomada através dos esforços de outrem. Nada és, além de um saqueador. Afirmas possuir nossos desejos e pensamentos; no entanto, ambos são areia que escorrerá das tuas mãos e te cobrirá a tumba. O que possuíste além das exatas dimensões e proporções de um cão leproso?

— A areia que guardo em minhas mãos encontrará teus olhos e te cegará. Julgas-me imagem e semelhança de um cão leproso? Pois essa lepra já deve andar pela tua pele; não esqueças que sou teu senhor e minhas chagas abrir-se-ão nas carnes que cobrem teu humilde esqueleto e caminharão ao encontro da tua alma infeliz. Torna teu pescoço. Tenho dois sentinelas aqui nesta câmara. Fora destes aposentos está o meu exército. Quantos senadores preciso subornar para arrancar-te os dentes e calar as imundícies que proferiste?

— Qual soldo usaria um usurpador, corrupto até entre os iguais a ti, para empreender o que intencionas? Menosprezas os homens que compõem o senado e os tens para ti como extensões de tuas posses. És tu pobre em todos os aspectos que evidenciam tua inferioridade em comparação com os verdadeiros predadores. Espera e mira esta porta; ela abrir-se-á e através dela adentrará tua morte.

— Cala-te! Crucificar-te-ei ainda hoje, antes que o sol se mostre!

 Nesse momento as portas foram abertas e vieram ao encontro dos dois os senadores. Todos levavam as mãos destras atrás das túnicas e aproximaram-se do Rei.

— Sejam bem-vindos, senhores, eu vos aguardava. Minha audiência com esse verme está finalizada.

Após o primeiro abraço, ele sentiu o fio gelado que fisgou uma de suas costelas.

A lâmina só cumpria o dever de seguir entre a carne e os ossos; mutilava e antecedia a hemorragia. Muda, ela obedecia ao movimento dos punhos. O segundo golpe serrou uma de suas pálpebras, arrancando-lhe o globo ocular. Seu poder esvaía-se junto com seu sangue, que lavava o chão de mármore e alastrava-se até escapar pelos ralos. Na última punhalada, o monarca, quase morto, reconheceu alguém que um dia amou, olhou dentro de seus olhos e murmurou com as sobras da força que tivera antes:

— Brutos? És tu?

 

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