ENSAIO >> Carla Dias


Permanece em silêncio. A reação dela faz com que os constrangidos se incomodem com mais afinco. Por que não adquirir um hábito mais saudável? Que tal se apegar a Deus e se inscrever em alguma religião? Ou se entregar a um compromisso? Hospedar-se em uma academia de ginástica?

Não vê problema em nada do que acham melhor. Tem suas conversas com Deus, e, não raro, convida para essa roda os filósofos, os cientistas, os teólogos e as pessoas que, mesmo sem títulos, dão nome às importâncias, criam espaço para elas, tornam-se indispensáveis sem compreenderem que são fundamentais na história de outros. Está comprometida com o não se comprometer por se comprometer. Exercita, diariamente, o não se render ao papel que já desempenhou um dia, e tão bem, que acreditou que havia nascido para ele.

Escolheu se abster da comodidade gerada por armadilhas programadas, com a finalidade de controlar o que nela já não se contém. Parou de se importar se iria para o céu, para o inferno ou para o nada absoluto. Perdeu o interesse em ruminar o futuro, já que não sabe do que ele se trata. Jurou que sua vida seria o que descobriu não lhe interessar. Ensaiou tanto para reconhecer, que passou despercebida.

Não que haja leveza suficiente para aquietar suas angústias, mas prefere assim, o que lateja, não adormece. Estabeleceu, consigo mesma, um compromisso nada apaziguador, daqueles de arranhar as paredes da existência com as unhas da inconstância, de atropelar com um sortimento de emoções que não se apega ao somente bom ou ruim. Decidiu não mais evitar o que a aproxima de uma existência de percepções, não de evasões. Decidiu permanecer em si.

O ensaio agora é outro. 


Imagem © Brigitte Werner por Pixabay

carladias.com


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