A MUSA E O RELOJOEIRO >> André Ferrer

Tanta festa para as musas: seus caprichos e seu trabalho de obsedar o escritor! Se não bastassem os rótulos de todo o sempre: o escritor é solitário, “gauche”, espião dos deuses... Uma bobagem despropositada! A não ser, claro, que o amadorismo baste.

Escrita é um trabalho tão lógico quanto compor músicas. Redigir textos e partituras depende de planejamento e trabalho. Nenhuma entidade virá de outra dimensão a fim de salvar o artista bloqueado. Então, não há mágica? Para o autor, jamais. A mágica só deve existir para quem lê o romance ou para quem escuta a sinfonia.

IMAGEM: PxHere

Todo artista verdadeiro é um ilusionista consciente da ilusão que cria. Fazer arte é fingir uma facilidade. Esconder do público todas as horas de trabalho árduo. Cada cálculo e cada gota de suor devem ficar do outro lado de um véu de naturalidade e habilidade performática. Então, um artista competente deve simular misticismos e nunca ser um místico. Deve ser um vórtice que não se deixa levar pelo próprio empuxo. Do contrário, estará acabado.

Muitos escritores relatam o bloqueio criativo. Fazem a dança das musas ao redor de uma fogueira em que ardem as queixas e os lamentos. Tudo porque não passam de uns crédulos. Envergam diuturnamente uma roupa que deveria ser exibida nos salões e despida em casa. Um adereço tão removível quanto um casaco, um cachecol, uma bota. Eles, contudo, nunca tiram as suas túnicas extravagantes. Adequadas para o cumprimento das obrigações sociais diante de um oráculo fictício, mas incômodas para o labor verdadeiro.

A mistificação não atrapalha desde que fique lá fora. Um pouco de “mise en scène” até pode ajudar no local e no momento adequado. Perigoso é quando um escritor, um músico, enfim, um artista, de tão crédulo, torna-se escravo do mito da inspiração. Na escrivaninha (que não é altar, mas bancada de oficina), ou o escritor se torna um relojoeiro metódico e persistente ou continua a amargar bloqueios criativos.


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Esta crônica faz parte do projeto Crônica de um ontem e foi publicada originalmente em 08 de maio de 2017

 

Comentários

Nadia Coldebella disse…
Eu já tive bloqueio criativo. Estava associado com meu estado de humor, o tédio.

Percebo que em períodos mais conturbados escrevo mais, talvez porque não sou uma escritora de verdade, mas uma psicóloga que escreve, tentando traduzir em palavras os resultados de uma observação participante de si mesma. Preciso do meu mundo interno agitado. Pra mim escrever vem em ondas. É mais um estado necessário do que uma ação da minha vontade. Não chamo de inspiração, porque não é bem isso, mas em geral começa com uma imagem e um despejo. Depois vem o trabalho.

De qqr forma, as vezes qdo estou bloqueada, escrevo sobre o bloqueio ou aleatoriamente, sobre a luz, o vento , alguma pessoa estranha ou sobre os passarinhos irritantes da rua que tenho vontade de espremer até sair os olhinhos (desculpa, incorporei uma das assassinas da Lady Killer).

As vezes seria mais fácil psicografar, mas não é meu caso... Nas horas q baixa o bloqueio, só fico prestando atenção no silêncio das palavras... Mas nenhuma entidade se manifestou até agora. Devo causar medo.

Pensando bem, vc me inspirou, vou incorporar alguma coisa e movimentar minha caneta.

Show de texto, Mestre André!
Gde abç
Ana Raja disse…
Que belo texto.Acho que não tenho bloqueio criativo, às vezes, o cansaço me ronda e não e não escrevo nada.
Jander Minesso disse…
Não é exatamente sobre isso, mas me lembrou um dito budista: “Antes da iluminação, cortar madeira. Depois da iluminação, cortar madeira.” Acho que seu texto passa um pouco por aqui, né? Focar no ofício e não no oba-oba. Mas o oba-oba é tão gostosinho…
Zoraya disse…
André, texto bom é assim, atemporal. Tô com a Ana, meu caso é cansaço e o tempo, esse moleque desvairado, que às vezes sai correndo com pernas pra que te quero, e eu fico resfolegando atrás. E to com vc, escrita não é um sacro ofício, é dedicação, perseverança, disciplina. O resto é história...
Albir disse…
Verdade, André!
Escrever é trabalho, não emoção.
"Sentir, que sinta quem lê", como diz Fernando Pessoa.
Soraya Jordão disse…
Sempre importante e necessário lembrar que a escrita é um lapidar exigente.

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