CONSERTO >> JANDER MINESSO
Depois de doze anos de serviços ininterruptos, nossa geladeira pifou às vésperas do final de semana. Passada a frustração inicial, fiz como nossos ancestrais e fui atrás de uma assistência técnica. Procura daqui, procura dali, encontrei. O especialista ficou de aparecer na segunda-feira de manhã para ver o que estava errado. Até lá, o jeito seria improvisar à base de iFood, comidas secas e porções pequenas.
O cara apareceu na terça. À tarde. Não levou nem cinco minutos para entregar o diagnóstico: o termostato que regulava a temperatura do congelador tinha queimado e, por consequência, o spleen transpositor não conseguia mais sintetizar o isobutano tetrafásico, criando uma camada espessa de gelo que acabou travando o ventilador e aí já viu. Me prometeu o orçamento para o dia seguinte, no primeiro horário. Acreditei de novo.
Só na quinta à noite recebi a facada: oitocentas pratas. Pelo menos, o rapaz já estava com as peças e poderia aparecer na sexta de tardezinha para resolver meu problema. Vacinado que estava, resolvi perguntar:
– Você vem, mesmo?
– Pode confiar.
Apesar de acreditar no melhor do ser humano, achei legal telefonar no escritório quando o relógio bateu quatro e meia da tarde de sexta. A Viviana, moça de voz bonita, me jurou que o combinado seria cumprido a despeito dos meus temores. Tranquilo, voltei a trabalhar enquanto esperava a visita. Quando dei por conta, eram dez para as seis. O técnico não me atendeu. Liguei para a Viviana de novo. Uma gravação me disse que eu deveria tentar o contato no próximo dia útil, em horário comercial.
A essa altura, o desespero era tamanho que desrespeitei a gravação e liguei para a empresa no dia seguinte, um sábado, bem cedinho. A Viviana atendeu. Tão logo reconheceu minha voz, se apressou em dizer que era a folga do técnico e não havia nada que ela pudesse fazer para me ajudar. Pedi outro técnico. Não adiantava, porque as peças estavam com o primeiro técnico. Me ofereci para ir até a casa dele buscar. Ela não sabia onde o rapaz morava. Supliquei por qualquer outra solução. Ela prometeu que deixaria agendado para que eu fosse o primeiro cliente da manhã de segunda-feira. Rimos muito. Eu, de nervoso.
Mas até o sadismo tem um limite e, na data e hora vagamente combinadas, o profissional apareceu para trocar o termostato que regulava a temperatura do congelador, permitindo que o spleen transpositor sintetizasse o isobutano tetrafásico e evitasse a criação de um iceberg na minha cozinha. Levou menos de quinze minutos, mas quem me contou foi a minha companheira. Nessa hora eu já estava no trabalho, conferindo a caixa de entrada do meu e-mail. E aí, aconteceu algo curiosíssimo: numa velocidade impressionante (se levarmos em conta os acontecimentos pregressos), apareceu uma mensagem da assistência técnica, perguntando se eu poderia avaliá-los com uma nota dez no site da Brastemp. Segundo a missiva eletrônica, isso era de suma importância para que eles continuassem atendendo ao maior número possível de clientes com a mesma atenção e presteza dispensados ao meu caso. Com um sorriso largo no rosto, cliquei em “responder pesquisa”.
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