EU, CARECA? >> Sergio Geia

 


Outro dia, andando pela rua, um amigo me chamou de careca. 
 
— Eu, careca? — respondi. 
 
Ele riu. Depois emendou: 
 
— Como não? 
 
Existe um instante, muito específico, em que o homem percebe que precisa defender coisas absolutamente inúteis. A espuma do chope. A marca do café. Endrick titular na Copa. A quantidade de cabelo ainda existente sobre a própria cabeça. 
 
— Há uma diferença enorme entre ser careca e raspar o cabelo. 
 
Ele não concordou. 
 
— Não há diferença nenhuma, Geia. Ambos são carecas. 
 
Aquilo me atingiu mais do que deveria. Então expliquei, num tom quase acadêmico: 
 
— Quando você diz que alguém é careca, parece definitivo. Irreversível. Um ponto final capilar. Quem raspa a cabeça está fazendo uma escolha estética, um ponto e vírgula, o cabelo volta. 
 
Ele me olhou com uma cara engraçada. 
 
Percebi que precisava ajustar a tese. Fazer uma pequena revisão científica dos fatos. 
 
— Quer dizer... volta. 
 
Pausa. 
 
— Ainda que só dos lados. 
 
Ele explodiu numa gargalhada. 
 
Eu também. 
 
Desde então, passei a evitar duas coisas: espelhos muito iluminados e amigos sinceros. 
 
 
 
Ilustração: ChatGPT

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