Cerração >> Carla Dias


Assistir ao aparecimento de cerração era a sessão da tarde daquela época. Sentava-me no chão, em frente de casa, em um barranco miúdo. Era como se a rua fosse água e nela eu pudesse molhar os pés. Meus pés nunca foram tão ousados quanto minha mente, daí negaram qualquer aprofundamento e criaram a primeira ironia: uma vida passada em um lugar chamado Represa e não saber nadar. 

A represa ficava um tanto para além da rua de casa. Ela tinha jeito de sem-fim, de senhora desabitada por escolha, feliz com a solidão, vivendo de ondulações induzidas pelo vento. Gerava peixes para o tio pescador levar para casa e reforçava o medo de me entregar à sua condução. Não me recordo de entrar nela, ainda que saiba que isso aconteceu uma vez, mas me lembro dos passeios às suas margens, tocando de leve, com os pés, a sua textura e seu movimento. E de tentar, com o olhar, alcançar um infinito que eu ainda não entendia pertencer aos quilômetros.

Eu não sabia que ela era inventada. Como imaginar gente encher tanto espaço de água? Daí veio a descoberta de que não era bem assim: gente construiu o berço, mas a água vinha de outras fontes, incluindo de uma que encantava com a mesma força que me metia medo. Era céu demais para tentar decifrar, mas a espera pela chuva, ao se anunciar à terra, e dela extrair o perfume que prenunciava a chegada das gotas d’água, tornou-se meu programa mais bacana.

A chuva continua a ser minha música preferida.

A cerração ocupando espaço era espetáculo que não agradava a maioria das pessoas. Para mim, era alento. Era sair da casa do corpo e morar, por algum tempo, na casa do mundo, mas assim, inteira. Achava interessante não enxergar o que eu sabia estar lá, e brincava de pintar fotografia na cabeça.

Teve tudo de bom e tudo de ruim lá, como acontece com todo mundo, em todo lugar. Gosto de trazer à memória alguns recortes: meu avô “cortando” o medo da criança, dando voltas ao redor da casa, conduzindo benzimento; a criançada brincando no quintal, minha mãe e tias cantando juntas, as primas e irmãs pulando corda, minha avó comandando o fogão à lenha. E dos pés de mexerica. E me lembro — mas acho que é lembrança inventada — de como foi entrar em um ônibus chamado Represa pela primeira vez. Acreditei, naquele momento, que aprenderia a nadar.

Nadar ainda não sei, mas sei me perder na cerração e voltar. 

---

carladias.com.br 

Comentários

Postagens mais visitadas