INFINITO >>> Ionio Paschoalin
Os olhos do meu pai têm a cor do mar depois
que chove muito; é um pouco verde, um pouco cinza e, se você olhar mais de
perto, vai perceber uma correnteza em movimento. Dentro deles há um oceano
imenso, barrado apenas por suas retinas, onde nadam fábulas esquecidas,
segredos dos navegantes mortos, memórias, mistérios e a eletricidade dos
trovões.
Quando chegam as tormentas que agitam o mar do
mundo dele, suas lágrimas formam ondas do tamanho de edifícios, que escoam
pelos vãos das suas pupilas e são bem mais salgadas do que as de qualquer outra
pessoa. Mesmo suportando turbulências, não gosta de falar sobre si mesmo.
Confesso que queria conhecê-lo melhor e,
durante toda a minha vida, o observei. O que sei dele é que é humilde, honesto
e compassivo. Gosta de ajudar e odeia pedir ajuda; as coisas que ele tem, ele
as tem para dar. Não retém nada para si por muito tempo; nada que possa ser
segurado por mãos ou guardado em carteiras, bolsos ou bancos.
O velho não tem inimigos; todos gostam dele. A
família era pobre e, aos doze anos, arrumou emprego com um comerciante do
bairro para ajudar nas despesas da casa. Entregava todo o salário à minha avó
Mercedes, que administrava os parcos recursos que tinham. Mas impôs limites à
sua bondade: que nenhuma luz revele o movimento das marés que guarda dentro dos
olhos; a água deve esconder tudo o que mergulha. Talvez seja isso que o mantém
acordado e curioso até agora, protegendo as perguntas de respostas que as
pudessem matar. Por que estragar isso?
E eu, o que posso lhe dizer? Digo que está
frio ou calor. Ele me recomenda colocar um agasalho ou tirá-lo. Falo sobre o
futebol; ele comenta que os goleiros de hoje não saem mais da pequena área para
apanhar a bola, ficam esperando o chute do adversário. Acrescenta que têm
“mãos de alface". Os demais jogadores são movidos pela arte dos
mercenários, e não pelo amor ao jogo, que deveria ser sua premissa. Se falo
sobre política, ele, que já se informou lendo e ouvindo todos os noticiários,
argumenta que são iguais os políticos. Já que escolheram essa função,
provavelmente não são pessoas em que se possa confiar.
Pergunto sobre a saúde dele e ele sobre a
minha. Estamos bem, ótimos, como nunca estivemos antes, como meninos; a não ser
por uma dorzinha aqui, uma coceirinha que está demorando para passar, o pouco
dinheiro que temos para pagar tanta coisa... Há muitas reticências entre uma
oração e outra.
Lembro nitidamente de ver seus olhos
marejados, bem abertos, quando me ouviu falar pela primeira vez: "Essa
coisinha já sabe falar? Quem ensinou? Damaris, Damaris!", chamou pela
minha mãe, "Damaris, venha aqui!". Uma criança sabe tudo aquilo que a
gente acaba esquecendo depois. E também sabe que, tirando as coisas que
aprendemos a fazer, não sabemos fazer mais nada.
Quando era mais novo, achava que nós
conversávamos mais quando não dizíamos nada um para o outro, apenas ficávamos
lado a lado, compartilhando o inevitável fato de sermos a mesma carne, dividida
em duas vidas diferentes e inseparáveis. Não temos gostos parecidos, não temos
lá muitos ídolos em comum; ele está sempre no ar, e eu quero mais lagos,
lagoas, rios, cachoeiras e mares como os que fluem nele. Queria ser igual a
ele, mas somos o contrário. Dentro de mim, as coisas vivem habitando o espaço
enorme dos desertos. Ele quer vento e árvores que dançam, folhas desgarradas e
voos.
Ficamos mais unidos quando me ensinou a
assistir às chuvas. Elas contam as histórias que ele viveu e sabe de outros
tempos, outros lugares, outros mundos. É preciso decifrar a poesia de seus sons
cacofônicos; é preciso silêncio.
"Filho, vem ver a chuva", dizia,
e eu ia. Parávamos em frente à janela, víamos a chuva encharcar as ruas e
formar enxurradas; nós nos calávamos. Não nos olhávamos, mas mirávamos na mesma
direção e compartilhávamos do mesmo espetáculo.
A chuva tem um cheiro que chega primeiro para
anunciá-la. E tudo o que é azul-marinho vai acinzentando e ficando pesado, com
cor e textura de chumbo. Feixes de luzes prateadas são projetados para, em
seguida, explodirem em sons estrondosos. Só aí o céu lava o que a gente olha; o
vento sopra melodias ao mesmo tempo que agarra folhas, flores e entulhos de
toda espécie e os leva para que encontrem um lugar que os barre.
Esperávamos até ela ficar mais tímida. Após o
ímpeto da fúria das nuvens, vinha o alívio por terem urrado e cuspido o que
lhes arranhava a garganta. Aí viravam garoas que sussurravam enquanto suas
gotas ficavam mais esparsas, até partirem para chover em outros lugares.
Deixavam os telhados molhados e as plantas mais orgulhosas do que antes, com
cabelos encharcados e troncos banhados de vida.
Até hoje nós fazemos isso. Às vezes, depois
que chove, o ar ganha reflexos de cobre, raios que cortam nossos olhares de
deslumbre. Os pássaros, que estavam abrigados, cantam e depois voltam a voar.
Lagos, lagoas, rios, cachoeiras e mares beberam até ficarem empanturrados e
plenos. Uma coisa é certa: tudo o que verte deságua em mar salgado.
Meu pai fala menos do que sabe. É um dos seres
humanos mais inteligentes que conheço e nunca foi um aluno exemplar. Matava
aulas para passar mais tempo nos cinemas, onde sonhava até os sonhos
impossíveis.
Não sei exatamente como aconteceu, mas um dia
ele descobriu o segredo da origem da vida e me contou com a simplicidade dos
sábios e dos santos. Eu era pequeno e lhe perguntei o que existia antes de Deus
ser Deus. Como Ele nasceu?
Aproximou-se de mim e apontou para o desenho de um círculo. "Filho, essa é
a única figura geométrica que você consegue traçar com um só movimento. É a
unidade fundamental. Onde começa e onde termina o círculo? É o desenho que
representa o infinito; veja que seu fim emenda com o começo; está parado e em
movimento ao mesmo tempo”. Eu assenti com a cabeça e ele concluiu: "Então.
Se nunca vai ter um fim, nunca teve um começo. Se não vai cessar jamais, jamais
foi iniciado; como a vida é para sempre, ela sempre existiu. Tudo o que teve
começo vai acabar; só não acaba o que nunca começou".
Depois que chove muito, a cor do mar tem os
olhos do meu pai...



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